Antes e Depois – A Inconfidência Mineira na Odontologia

Nesses últimos dias a cúpula da odontologia brasileira viveu um daqueles raros lampejos de inspiração quando o CRO-MG lançou a já famosa “Nota Técnica 001/2018” onde tratava com olhos um pouco mais coerentes a questão das postagens de imagens tipo “antes e depois” em perfis de redes sociais. Mas no Brasil, esse país progressista, educado e sem corrupção em que vivemos, trataram logo de afogar qualquer aspiração de liberdade nessa que ousarei chamar aqui de “Inconfidência Mineira na Odontologia“.

Veja na íntegra o que a referida nota dizia:

 

Resumindo, o CRO-MG passava ali a considerar perfis fechados, onde os seguidores precisam pedir permissão para visualizar as fotos, como um portfólio permitido, desde que houvesse nas imagens a identificação específica do profissional/autor, com seu número de inscrição no CRO. Foi uma fagulha de esperança que fez com que dentistas do país inteiro, à medida com que a notícia se espalhava via redes sociais, vislumbrassem no horizonte o fim dessa (a meu ver) inútil e perversa proibição.

Mas como dizia meu amigo Capitão Nascimento …

 

 

Em pouquíssimo tempo outros conselhos regionais, que tinham ali a inestimável chance de aderir ao movimento mineiro e criar um ambiente favorável a essa mudança, se acovardaram e, aliados ao CFO, arquitetaram um “cala a boca” que veio personificado através de um ofício que solicitava o imediato cancelamento da nota técnica 001/2018. Vejam:

 

 

De imediato, pois manda quem pode e obedece quem tem juízo, o CRO-MG acatou as ordens superiores e emitiu um ofício onde comunicava o cancelamento da nota técnica:

 

 

Bem, esses são os fatos, agora, se me permitem, usarei esse espaço para emitir a minha opinião sobre tudo isso. Não espero que concordem, apenas peço que respeitem, assim como respeitarei a opinião de todos.

Já manifestei em diversas ocasiões que sou contra essa proibição. Meu motivo para isso é simples: acho que deveríamos ter esse direito. Penso que no mundo em que vivemos poder comunicar o que somos capazes de fazer faz toda diferença para o nosso sucesso profissional e ainda pode ajudar o paciente a se informar e se decidir sobre tratamentos. Além de tudo, penso ser até um direito deles.

Entendo que existe um Código de Ética Odontológico em vigor, que é a “lei” vigente, e que independente da minha concordância ou não, é isso que está valendo, e cabe a nós cumprir. Mas ter que cumpri-la, não me obriga a aceita-la, apenas a respeita-la, correto ???

 

Depois e Antes

 

Entendo perfeitamente os riscos de se cruzar essa fronteira. Sei que a partir do momento que mostro uma previsibilidade passo a deixar de atuar numa profissão de obrigação meio, para uma “obrigação” de resultado. Entendo que gerar uma expectativa nos pacientes aumenta e muito seu nível de exigência e, consequentemente, a minha responsabilidade. Mas vejam, todos esses ônus a meu ver, para quem trabalha corretamente, são infinitamente menores que o bônus, e o mais importante é que eu deveria poder escolher se quero trabalhar com essa carga nos meus ombros ou não.

Percebam que não penso que deva ser OBRIGATÓRIO divulgar antes e depois.

O que a meu ver não pode é ser PROIBIDO.

Seria bem assim:

 

“Quer divulgar, ok !!! Assuma as responsabilidades dessa escolha e aproveite a imensidão de possibilidades que se abrem.”

 

“Não quer divulgar, ok também. Você fica assim “protegido” dentro das 4 paredes do seu consultório.”

 

Porque não deixar o dentista escolher se quer ou não ser julgado pelas “promessas” que suas imagens fizeram ??? Os Conselhos poderiam muito bem cadastrar os colegas que querem divulgar seu trabalho, o que serviria como uma declaração consciente das responsabilidades dessa escolha. Ninguém é criança aqui, e permitir tal escolha só seria mais uma decisão adulta, das tantas que fazemos ao longo da nossa vida profissional.  Assim sendo, a decisão volta para as mãos de quem interessa e que, no final, paga sempre a conta: o dentista.

Juridicamente não sei como poderia ser feita essa diferenciação, afim de manter “imunes” aqueles que desejarem permanecer como estão, mas com certeza alguém mais inteligente que eu deve ter uma solução para isso. Com certeza é possível. Talvez um recadastramento, uma inscrição na carteirinha do CRO, onde conste essa opção, assim como acontece em quem opta por ser doador de órgãos. Enfim, não sei qual a melhor opção para legalizar isso, mas com certeza ela existe.

Sei que a princípio, assim como em toda mudança, seria necessário um certo trabalho de comunicação, conscientização e educação. Os conselhos precisariam sair da inacreditável zona de conforto onde se sentaram há algum tempo, mas é um preço que considero absurdamente baixo se considerarmos os benefícios que poderíamos proporcionar aos colegas que optarem pela possibilidade de mostrarem sua capacidade técnica, conquistada com muita dedicação e investimento em cursos e especializações.

Não é fácil, mas é possível. Resta saber se interessa a quem comanda a odontologia nacional. ¯\_(ツ)_/¯

 

PS: Não sou membro do CRO-MG. Não apoio politicamente e nem sou adversário. Não me envolvo. Apesar da terminologia usada no título do post não acho que eles sejam “heróis nacionais” pelo que fizeram, apenas foram momentaneamente mais abertos aos clamores de uma classe que tem sofrido com uma seletiva permissão dessa prática do antes e depois, onde só os “pequenos e não famosos” são coibidos e alguns dentistas mais badalados não são importunados. 

O Dicas Odonto também falou sobre isso

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Fabrício Mendes
Fabrício Mendes
Fundador do Vida de Dentista

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