Sobre ética, intolerância e obrigação de atendimento

Essa semana o Brasil inteiro (ou quase todo) ouviu falar, nem que por um breve instante, no caso da médica pediatra gaúcha que se recusou a continuar o atendimento de uma criança cujos pais não compartilhavam da sua mesma opção e visão política. Eles são de esquerda, a pediatra, de direita.

Choca isso, certo ??? Depende. E não depende se você veste verde-amarelo ou veste vermelho. Nem se prefere coxinha ou pão com salame. Depende do seu grau de maturidade e de instrução.

O escritor italiano, recém falecido, Umberto Eco, disse certa vez que as redes sociais deram voz a uma multidão de idiotas. E esse caso em específico prova que ele estava certíssimo. Discursos repletos de intolerância e ódio povoam as redes sociais desde então. A imensa maioria feitos por gente que não tem um pingo de ideia sobre o que está falando. Mas mesmo assim falam.

Nós profissionais de saúde temos a prerrogativa legal de nos recusarmos a atender paciente x ou y de acordo com a nossa avaliação, quando houver qualquer empecilho ao bom relacionamento e desempenho profissional. Não há, como disseram muitos, obrigação de atendimento.

Alguns pontos importantes precisam ser mencionados a respeito, até para evitar que desinformação circule por aí contaminando ainda mais as mentes desses partidários revoltados.

O primeiro é o fato de que o tratamento a que criança seria submetida não era nenhuma emergência, ou seja, era eletivo, e a negativa de atendimento não colocou o(a) paciente em risco algum.

O segundo é que a pediatra se dispôs a encaminhar o(a) paciente para outro colega que pudesse prosseguir seu atendimento, fornecendo prontuários e toda e qualquer informação que fosse necessária sobre o caso.

O terceiro, e mais importante ao meu ver, é que ela fez algo que eu sinceramente gostaria que a pediatra de minhas filhas fizesse conosco, caso estivéssemos numa situação similar. Qualquer coisa que pudesse prejudicar o melhor e mais perfeito atendimento a elas, mesmo que insignificante e intolerante aos olhos de alguns, deve ser comunicada, pois pra quem é pai, nada é mais sagrado que o bem estar máximo dos filhos. Essa família deveria era agradecer a honestidade dessa profissional. É isso que eu faria.

Não há dúvidas que essa atitude da pediatra foi extremamente corajosa. Ela deu a cara a tapa e não traiu a sua consciência, alicerçada pelos direitos e deveres constantes no seu código de ética. Em tempos politicamente turbulentos como o que vivemos, é óbvio que essa atitude dela vem sendo execrada.

O CFO ainda não se manifestou a respeito, mas alguns sindicatos sim. Apesar desse fato envolver uma área correlata, que é a Medicina, na Odontologia as coisas funcionam de maneira exatamente igual.

Se eu faria o mesmo ??? Sinceramente não sei. Depende muito do grau de indisposição que a presença dos pais ou do(a) paciente me causasse. Mas se tem uma coisa aqui que não dá pra fazer é julgar uma atitude totalmente legal e embasada, que não prejudicou ninguém e está sendo usada maldosamente para politicagem. Antes de criticar, não custa nada se informar melhor. 😉

 

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Fabrício Mendes
Fabrício Mendes
Fundador do Vida de Dentista

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