Um dia na vida de um dentista qualquer

â??ATENÃ?Ã?O: Esse conto é ficcional. Qualquer semelhança com fatos, acontecimentos ou situações aqui descritos será mera coincidência.â?
Sete horas da manhã. O despertador insiste em tocar cada vez mais alto e me tira da cama, mas eu queria mesmo era dormir até mais tarde. Ir pra academia, dar uma volta no parque, brincar com o cachorro… Mas o soneca de tira do devaneio e me faz lembrar que estou atrasada pro trabalho. Visto a roupa branca, como apressadamente e vou pro consultório, onde um longo dia de trabalho me espera.
Na realidade quem espera sou eu. Espero o paciente que se atrasou 20 minutos, afirmando que â??acabou perdendo a hora, né? Sabe como é, tomou umas cervejinhas a mais naquele churrasco da noite anterior e dormiu demaisâ?. Ã?. Nem precisava dizer, dada a quantidade de carne nas proximais dos dentes. Sono demais e fio dental de menos. E vamos fazer aquela restauração de classe II na distal do 36/mesial do 37 em que a língua insiste em tirar a matriz e a cunha de posição… Chama auxiliar, suga aqui, afasta ali e, depois de muito contorcionismo, VOILÃ?! Missão cumprida! Mas é só a primeira luta do dia…
Segundo paciente: Tratamento de canal. Na hora da anamnese, pergunto se a paciente toma algum tipo de medicação. Ela nega veementemente, e aos poucos vai se lembrandoque toma só o remédio da pressão. E do colesterol. E da tireóide. E anticonvulsivante. E um â??que o cara da farmácia passou pro dente mas que não lembra o nomeâ?. E pergunta: â?? – Dotôra, posso tomar NAVAGINA se eu tiver MISTURADA?â? Aí tive que ter cuidado pra não soar pedante quando respondi que não, não teria problema algum em tomar Novalgina durante a menstruação… E comecei o atendimento. Era uma biopulpectomia de um canino com indicação protética, então, já que todos os passos foram feitos com sucesso, procedi à obturação do conduto. Odontometria, prova do cone e só faltava a condensação lateral. Pedi pra auxiliar me passar a caixa de cones acessórios, e ela diz que tá na autoclave. NA AUTOCLAVE? â??Ã?, dotôra. Deixei aquela caixinha cair no chão e coloquei pra esterilizar…â? Daí ela tira aquela maçaroca cor de rosa do pacote e diz que não sabia o que aconteceu. O sangue subiu à cabeça mas não falei nada, só pedi pra pegar outra caixa no estoque. E quis chorar.
O último paciente daquela manhã era uma odontopediatria. Uma criança de 5 anos com dois molares inferiores cariados, que eu já sabia com meia hora de antecedência que havia chegado pelo volume dos berros ouvidos até o quarteirão seguinte. Toda a minha psicologia infantil foi gasta com o pequeno rapaz, que com algum poder de persuasão (também conhecida como chantagem) da mãe resolveu entrar no consultório. Mostra aqui, brinca ali, e chega a hora do procedimento, que obviamente a criança não quis colaborar. Uma hora, muitas lágrimas, mordidas no dedo e uma enxaqueca (em mim) depois, sai a criança feliz e contente com um balão feito de luva de procedimento e dois ionômeros de vidro nos dentinhos.
Corro pro banco pra pagar as contas: Dental, dental, dental, protético, aluguel… E dou de cara com um antigo paciente na fila que resolve querer uma consulta ali. â??-Olha, dotôra, como essa gingiba tá inframada?â? Não, meu senhor. Não quero ver sua gengiva inflamada, ainda mais no meio da agência. Sugiro marcar uma consulta (que ele quer que eu marque ali) e dou o número do telefone do consultório, pra onde definitivamente ele não vai ligar até que sinta os dentes moles ou muita dor. Corro pra casa fazer o almoço. Só dá tempo pra um macarrão com molho, que magneticamente é atraído pelo branco da roupa e lá vou eu tomar um banho na velocidade da luz e me trocar pro segundo round.
Paciente chega no consultório pra â??tirar o modes da pererecaâ?. Hein? Levo alguns segundos pra entender que ela queria moldar a PPP (prótese parcial provisória). Serviço feito, paciente satisfeita. Segue a tarde com um ritmo pesado de trabalho: Avaliações, diagnósticos, terapia periodontal, exodontias… Ah, uma extração de pré-molar superior sob indicação ortodôntica que parecia fácil, mas que fraturou a raiz palatina e levou mais de uma hora pra sair. Uma restauração de anterior que demorou alguns minutos a mais porque a matriz de poliéster simplesmente desapareceu da bandeja magicamente, e que tive que condicionar duas vezes pois o paciente tossiu no meio do procedimento. Mas quem nunca, né?
Exausta, sem parar nem pra um café, dou meu dia de trabalho por encerrado e saio em direção à minha casa. Sem chance de ir pra academia nesse nível de cansaço, resolvo passar no supermercado pra comprar algumas coisas. Escolho rapidamente, e enquanto aguardo a minha vez na fila do caixa, ouço sem querer a conversa do casal à minha frente: â??-Tá sentindo o cheiro de algo estragado aqui?â? â??-Não é estragado, é aquele fedor de consultório de dentista…â? Faço cara de paisagem quando eles se viram pra mim, afinal, nem vale a pena pensar em uma resposta. E nem tem resposta pra dar. Ã? isso. Depois de um dia de trabalho tou com ~~fedor de dentista~~.
Chego em casa, tomo um longo e demorado banho, como e vou deitar. Coloco o despertador pra tocar, achando que vai ser um novo dia amanhã. Só que não. 😀

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Comentáros

comentários

15 Comentários

  1. Luiza disse:

    Ok, tô pensando seriamente se quero mesmo me formar logo! HAHAHAHAHA

  2. MUITO BOM PARECE Q TOU ME VENDO!!!

  3. Texto muito legal….acabo ficando menos frustrada, pois vejo que o dia dia dos dentistas "normais" são parecidos…

  4. Milena Saito disse:

    NUNCA OUVIU FALAR EM ISOLAMENTO ABSOLUTO? RESOLVERIA O PROBLEMA DA LÍNGUA E DA TOSSIDINHA…

  5. Eduardo Araújo disse:

    Haha, imagina então 5 dias seguidos desses. E no serviço público então!

  6. Rac disse:

    Gostei do texto, parabéns!

  7. Maria Helena Moreira disse:

    oO que estimulante!kkkk

  8. Denise Pasternak disse:

    Quem roubou o meu diário?????? hauhauhauhauhauhauhau, ti conta viu, dentista sofre!

  9. Quem roubou o meu diário? hauhauhauhauhauhauhau, ti conta viu, dentista sofre.

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