Sobre Odontologia, erros, acertos e conselhos

Trago hoje para vocês o depoimento fantástico de uma leitora do VDD, que traz à tona muitas verdades que dentistas do Brasil todo DEVERIAM LER antes de cair no mercado de trabalho.

“Meu nome é Maria Laura, sou cirurgiã dentista formada há 6 anos, e com esse texto, eu espero que você recém formado (ou estudante de odontologia) vá para o mercado de trabalho mais preparado do que eu fui. No atual cenário, isso pode ser a diferença entre uma vida muito difícil e uma consideravelmente mais tranquila. E que fique claro, esse texto não é pra você filho de dentista, que já tem um consultório te esperando, ou pra você que tem possibilidades (leia-se disponibilidade financeira) de já engatar uma especialização após a faculdade e abrir um lindo consultório sem a real necessidade de ganhar dinheiro. Esse texto é pra você que vai sair da faculdade e trabalhar para terceiros até poder (através do seu próprio trabalho) abrir seu próprio negócio.

Eu me formei no interior de São Paulo, tinha acabado de completar 21 anos. E de repente caí de paraquedas e sem nenhum planejamento num mercado saturado e desvalorizado de uma cidade com uma infinidade de clínicas populares e cirurgiões dentistas. Não há dentistas em minha família, e também não venho de uma família que poderia me ajudar financeiramente a fazer o que quer que fosse após a faculdade. A graduação era a última “obrigação” da minha família comigo, a partir dali, o problema seria só meu.

Aluguei um consultório assim que colei grau, e lá fui eu atender família e amigos. Fechei, semi-falida alguns meses depois. Fui então trabalhar em clínicas populares da cidade e encontrei todo tipo de realidade. Chegava em casa revoltada, chorava, e me perguntava se tinha feito a coisa certa ao cursar odontologia. Mal sabia eu que ainda demoraria MUITO tempo até eu encontrar alguma coerência no caos de um sistema que muitas vezes é massacrante.

Dentre as coisas que passei ainda na minha cidade, a baixa remuneração foi a mais desgastante delas. R$30,00 por uma restauração (preço cheio, eu ganhava porcentagem sobre esse valor), R$13,00 pela hora clínica do cirurgião dentista. E o pior era perceber que os próprios donos das clínicas não tinham outra alternativa, tamanha era a prostituição da profissão, e consequentemente dos valores dos procedimentos. Ainda hoje, 6 anos depois, sei de amigos meus que continuaram por lá, que basicamente continuam os mesmos valores absurdos de remuneração nessas clínicas. Fique claro, consultório particular é OUTRA realidade, tá gente? Mas dificilmente alguém cede consultório pra um recém formado “pegar mão”.

Em outubro de 2013, um amigo me indicou realizar o curso de Módulos em Ortodontia do Instituto Marcelo Pedreira. Com muita dificuldade fui, acreditando que talvez fosse um novo horizonte pra mim. Eu já tinha uma certa experiência clínica e já achava seguro optar por uma área de aprofundamento. Foi uma decisão muito acertada.

No curso recebi uma proposta pra trabalhar para uma franquia no Rio Grande do Sul. E em novembro de 2013 lá estava eu, com R$500,00 no bolso dentro de um avião, pronta pra começar uma vida nova em outro estado.

Trabalhava das 8:00 as 20:00 com 1hora de almoço pra ganhar 23% de comissão. Eles prometeram ter alojamento para o dentista mas houve um ponto em que eu dormia praticamente num colchão no chão. Passei por absurdos dos mais bizarros possíveis. De sócios que instigavam dentistas a competirem e até brigarem por pacientes, até dentistas dentro da mesma clínica saírem e montarem seus consultórios em frente e levar todos os pacientes consigo.

Fiquei nessa empresa por 2 anos. Fui responsável técnica, e aprendi muito ali. Não apenas sobre trabalho, mas sobre meus limites e o tipo de vida que eu queria ter um dia.

Ganhei dinheiro ali e acredito que foi uma experiência válida, mas de todos os conselhos que eu posso dar a alguém com menos experiência que eu, o principal é: Não se sujeite a colaborar com a desvalorização da profissão.

Eu sei que você tem contas a pagar, e que você precisa trabalhar. Mas a decisão de elevar o nível do seu trabalho, terá de ser tomada mais cedo ou mais tarde. Olhando pra trás, eu gostaria de ter feito isso mais cedo.

A minha realidade embora fosse péssima, ainda era MUITO melhor do que de amigas que vez ou outra davam notícias… Estavam na capital paulista, trabalhando em clínicas POP (quase clandestinas), onde o mesmo sugador era usado o dia inteiro, dormindo num quarto com 3 ou 4 beliches lotadas, e 1 banheiro para 8 pessoas.

Então antes de aceitar um emprego em qualquer lugar, faça um período de experiência, e pondere honestamente se você aguenta, se seus limites toleram a realidade de trabalho daquele lugar. 1 ano num ambiente desse te envelhecem por 10.

Quando iniciei minha especialização em Ortodontia em 2015 comecei a ter contato com uma realidade muito melhor de odontologia e trabalho. Decidi que era o momento de mudar. Eu não queria mais aquela sensação de trabalhar como escrava para enriquecer quem já tem dinheiro sobrando, e que não dava a mínima para as coisas absurdas que aconteciam dentro das clínicas.

Porque, meu amigo, você não faz ideia do tipo de merda que acontece num lugar onde o lucro é mais importante que o trabalho executado. Eu vi de tudo mesmo. Até extração de canino quando na verdade o dente que deveria ter sido extraído era um pré-molar. Dentes que deveriam ter sido obturados endodonticamente e eram restaurados vazios. Enfim, os profissionais eram mal remunerados, explorados, e isso gerava um ciclo muito destrutivo. E embora o baixo salário não justifique as iatrogênias, afinal aquele profissional se dispôs a trabalhar sob aquelas condições, era terrível ver o outro lado onde profissionais passavam por problemas de saúde, financeiros e se estressavam todo santo dia com falta de materiais, e todo tipo de problema de infra estrutura (como ter 1 fotopolimerizador para 5 dentistas).

A rotina numa clínica popular pra quem se obriga a executar um trabalho digno, é excruciante. Você ter de implorar por material, por tempo de atendimento, por coisas OBVIAS, é realmente desanimador, sufocante.

Quando minha saúde entrou na roda, eu estava com uma úlcera, acne severa de fundo emocional e 20 kgs mais gorda. Alí depois de uma crise de pânico que durou 3 dias eu decidi que poderia passar fome, mas nunca mais trabalharia sob essas condições novamente.

E foi difícil virar esse jogo.

Quando você não conta com outra fonte de renda além do seu trabalho, é extremamente complicado “escolher trabalho”. Geralmente o trabalho que te escolhe. Mas com muita insistência e paciência, depois de dias pra lá de sombrios onde eu não sabia se iria ter como pagar o almoço do dia seguinte, eu comecei a achar um caminho de realização dentro da minha profissão.

Fui conseguindo parcerias com consultórios, e aos poucos fui deixando as clínicas. Encontrei pelo caminho alguns bons colegas que realmente queriam uma parceria, e assim, os tempos difíceis foram sendo amenizados por uma rotina mais leve. Hoje basicamente trabalho nesses sistema, com porcentagens JUSTAS, onde eu e o consultório ganhamos. E Quem obviamente ganha mais é o paciente.

Queria deixar claro que há sim clínicas odontológicas que prezam tanto pelo dentista quando pelo paciente. Mas acho que o fator remuneração é algo que precisa ser revisto.  Pagar R$20,00 ou R$25,00 pela hora de um especialista é pedir para ter um profissional desmotivado. Sou apaixonada pela minha profissão. Mas eu, como inúmeros outros dentistas, precisamos pagar contas, especialização, materiais… E esse valor não é JUSTO. Conhecimento custa CARO.

Hoje 6 anos (quase 7) depois de me formar, faltando apenas defender minha monografia da pós graduação em Ortodontia. Posso dizer que me encontrei na profissão, e vivo, finalmente uma subida na vida profissional.

Acredito que dentro do planejamento ainda em 2018 abrirei meu tão sonhado consultório, e assim seguir em frente dentro dessa profissão tão maravilhosa.

Então se você leu até aqui, quero que se lembre basicamente desses três itens:

– Planeje! – Hoje com o acesso que temos a tecnologia, redes sociais, está muito mais fácil ganhar dinheiro, ter outra fonte de renda e planejar o futuro. Planeje seus próximos passos. Faça cursos de gestão. Aprenda sobre administração, gerenciamento, invista tempo nisso.

Se dê prazos pra alcançar suas metas. “Eu só vou trabalhar para terceiros até tal ano”. “ Ano que vem começo minha pós”.

– Seja um profissional digno. – Não importa onde você trabalhe, dê o seu melhor. Você estará lidando com a vida de outro ser humano. Jamais, nem por 1 segundo cogite fazer algo, errado, como utilizar materiais não esterilizados, reutilizar fios de sutura ou coisas do gênero. Eu deixei de fazer incontáveis procedimentos para não expor um paciente a esse tipo de coisa.

-Não desista! – Existe vida digna na nossa área profissional. Existe gente boa e competente disposta a ajudar de alguma forma. Você vai encontrar pessoas muito legais pelo seu caminho profissional. Meus professores de pós foram incríveis, por incontáveis vezes fiquei após o horário conversando, ouvindo as experiências deles, aprendendo sobre a vida e a odontologia.  Então se mantenha focado que será mais fácil vislumbrar um futuro de realização.

O caminho pro sucesso não é fácil, não é simples. E a maioria dos grandes mestres que vemos hoje colhendo os frutos do sucesso, começaram como eu e você.

Você passou por 5 anos de graduação, valorize esse tempo investido, esse dinheiro investido. Valorize essa profissão maravilhosa que transforma vidas.

A valorização da odontologia começa pelo dentista.

Um grande abraço e boa sorte!

PS: A quem se interessou, fiz minha especialização no Instituto da Face – Uningá na cidade de São Leopoldo –RS. Com os profs. Christian Angheben , Eduardo Prado, Pedro Andrade Jr. e outros feras. Recomendo muito, assim como recomendo o Instituto Marcelo Pedreira.

***

E aí ??? O que achou ??? A história dela se parece com a sua???

Compartilhe essa postagem com seus amigos
  • 1.7K
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Comente

Comentários