OdontoSecção #20 – O dia em que foi o dentista quem chorou 

Deixei passar um dia enquanto processava tudo o que me ocorreu ontem no trabalho.

Atendi como meu primeiro paciente do dia uma criança que tocou o meu coração e pela primeira vez na minha vida profissional me fez chorar, me emocionar com meu atendimento.

O rapaz, portador de algum tipo de paralisia cerebral, tem grandes limitações físicas e motoras e precisava que um dente fosse extraído. Eu já o havia atendido antes, cerca de dois meses atrás, mas o atendimento de ontem me marcou. Ele estava obviamente com medo, e lutava contra o próprio instinto de não abrir a boca. Eu percebia que ele queria me deixar atendê-lo, ele sabia que eu iria tirar aquele dente que tanto lhe doía, e ele lutava contra si mesmo. Troquei algumas poucas palavras em seu ouvido, até que falei as palavras mágicas – Galo, Luan, Victor… na hora o pequeno fez um esforço descomunal e abriu a boca. Consegui atendê-lo e remover o dente cariado.

Durante a cirurgia me emocionei, e confesso que me segurei para não chorar. Ao término da cirurgia, a colega especialista em PNE foi conversar e acalmar o pai que estava ansioso do lado de fora, relatou que tínhamos terminado o atendimento e tudo tinha corrido bem.

Depois foi a minha vez de ir falar com o pai, passar as recomendações e a medicação que o menino precisaria tomar. Foi quando ele me disse – “nossa doutor, como eu vou fazer pra dar esse remédio pra ele de 8 em 8 horas? Eu saio pra trabalhar às 9 da noite e só volto de manhã cedo”. Ingenuamente eu perguntei sobre a mãe da criança e ele disse que criava o menino sozinho, que sua mãe lhe ajudava muito mas que ela tinha falecido há pouco, e que ele não tinha ninguém para ficar com o menino e dar o remédio à noite. Ajustei a dose, passei horários de forma que ele conseguisse medicar adequadamente o menino e lhe fiz a mesma promessa que tinha feito à criança durante o atendimento – que eu iria fazer tudo que estivesse ao meu alcance para que ele pudesse ir à Cidade do GALO, e assim o farei.

Aquele pai que sozinho cuida do seu filho, que me contou que por duas vezes a mãe tentou interromper a gravidez, que quando ele nasceu os médicos falaram que ele nunca andaria. O menino não só anda como entende tudo que lhe falam, gosta de desenhos, GTA, do GALO e ainda por cima, ao final de tudo isso, pediu para colocar a mão em minha cabeça e me abençoar.

Que Deus dê muita saúde e disposição a esse pai, que se doa por inteiro ao seu filho, pois fui eu quem ganhei um presente ao poder atendê-los.

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