Porque você ainda é dentista ???

Desculpe o transtorno, mas preciso perguntar: porque você ainda é dentista ??? O motivo ??? A grande repercussão que do post sobre fazer novamente Odontologia. Não esperava.

Pensando bem, esperava sim.

Falo com muita gente, seja na internet ou nos cursos que dou, ou na escola onde trabalho, e vejo uma triste realidade. Muitos colegas estão fazendo Odontologia apenas porque esse é o seu diploma, que um dia até fez sentido, mas hoje não faz mais. Uma idiotice, desculpe a sinceridade, sem tamanho.

Se esse é o seu caso, sugiro que leia o relato dessa colega, que achei importante compartilhar com vocês. Sei que esse tipo de postagem não é das mais gostosas se ler, mas o compromisso desse site não é somente agradar. Às vezes é preciso incomodar, indignar, fazer pensar. Veja a história da Hyali:

“Dentista por graduação, durante 18 anos Hyali trabalhou com ortodontia em Campo Grande. Mineira, chegou à Capital depois de se formar, em 1993 e há seis anos, fechou as portas do consultório para abrir as do ateliê e viver da sua arte no seu estado de origem, em uma cidade pequenininha, de 4 mil habitantes. 

Gonçalves é sua residência há nove meses e nos últimos quatro, palco para o Ateliê Espaço Criativo. “Moro perto do ateliê, ele tem um ponto bacana, fica bem no centrinho da cidade e é um lugar que às vezes até atrapalha a produção pelo tanto de gente amiga que senta para conversar, tomar cafezinho e fumar um cigarrinho de palha”, descreve Hyali Barros, hoje com 44 anos.

Tudo isso acontece ao som do violeiro vizinho, que torna ainda mais atrativo o ponto de encontro. “Às vezes eu até penso, a vida vai passar e eu não vou ver o tempo passar”, brinca.

A conversa com Hayli que virou este texto fala sobre a coragem de mudar, depois de se analisar e se autodescobrir. E mostra que para ser feliz, não é preciso fazer o mesmo a vida toda.

As Artes já faziam parte da Hyali menina, ainda aos 8 anos, quando as aulas de pintura começaram, mas ficaram em segundo plano quando ela teve de escolher uma profissão.

“Minha irmã já exercia a Odontologia e por influência dela, pela empolgação e dedicação que ela tinha, eu fiz Odonto”, revela. Contrariando até mesmo os testes vocacionais feitos aos 17 anos, Hyali inverteu as respostas. Todo o caminho artístico foi para o fim da fila, dando lugar à área da saúde, que aparecia em última opção. 

“Mas você fica muito preocupado com o desempenho social, quando eu falo que é uma idade ingrata de você escolher uma profissão é porque eu acho que deveria existir um teto, uma idade mínima para você poder fazer uma escolha”, acredita. 

Para saber o que se quer é preciso se analisar, se descobrir. A resposta deveria, pelo menos em tese, ser fruto do silêncio interno, da busca interior, de saber suas qualidades e tendências. “Mas você imagina numa idade que está tudo muito efervescente, a questão de você se inserir na sociedade, neste período você olha ao entorno e quer estar incluído, precisa e para ser bem aceito, você tem que fazer aquilo que as pessoas acham que é conveniente”, explica.

Sete anos depois de formada, Hyali encontrou na Filosofia todo questionamento teórico que precisava ser feito a si mesma. “Aquele jargão, conhece-te a ti mesmo e conhecerá a Deus e ao universo…”, filosofa. E o que ela fez com essa descoberta? Decidiu colori-la.

“Tive mesmo um estalo: eu penso que a vida da gente é feita em ciclos e quando você percebe que tomou um caminho que não está te satisfazendo, começa a criar angústias, aí vem as doenças vocacionais, que são subjulgadas. Acham que é frescura, que depressão cura com remédio e assim você está cuidando só das consequências”, avalia. 

E quando as pequenas angústias diárias aumentam, é preciso despertar. Foi isso que ocorreu à dentista. “Existem períodos de busca, depois a construção de alicerces. No momento em que você tem a necessidade de construir casa e família, você está realmente focada em bens materiais e não dá tempo de pensar em muita coisa. Você está num processo de agitação interior e do meio também”, explica. 

Daí sai o que sustenta e adia a tomada de decisões. A arte – que para Hyali foi a pintura – fica relegada a ser um hobby e quem a pratica, fica refém da espera pela felicidade. “Você vai adiando essa pequena satisfação para o final de semana, para uma vez por mês e no fim, vai ficar angustiado, sempre esperando por algo bacana e é naquilo que você se realiza e o grande erro está nisso: você não faz o que deveria fazer bem feito, porque já está angustiado e não conquista o que você gostaria de fazer, porque não tem tempo”.

“Eu tenho 44 anos agora, antes fazer um curso era realmente fazer para a vida inteira e hoje não. Você pode modificar no meio do caminho…”, prega Hyali.

Eu tenho 44 anos agora, antes fazer um curso era realmente fazer para a vida inteira e hoje não. Você pode modificar no meio do caminho..., prega Hyali. (Foto: Fernando Antunes)O que eu quero estar fazendo daqui 10 anos? “Foi justamente essa pergunta que me fiz. Fiquei numa fase transitória por volta de dois anos, já tinha as atividades artísticas, porque fazia vários cursos de Artes, mas você determina que arte não dá dinheiro, vou fazê-la como hobby e as pessoas acreditam nisso”, cutuca. Quando a verdade universal cai por terra, os olhos enxergam que ao seu redor, tem artistas que vivem assim. 

“Eu tenho 44 anos agora, antes fazer um curso era realmente fazer para a vida inteira e hoje não. Você pode modificar no meio do caminho, trabalhar algo que você modifica, criar uma empresa, existem formas de você pensar em algo que vai poder fazer por determinados períodos. Você não precisa ser médico ou advogado a vida inteira. Eu tenho pena de pessoas que acham que a vida é única para a vida inteira e se engessa e fica assim. Isso é muito injusto com o ser humano”.

Somos estações do ano

 Hyali compara a vida humana às estações e recorre a elas para descrever o caminho pelo qual resolveu trilhar, que traduz mais ou menos assim: depois de verões externos, festas e buscas, o outono é como a fase adulta.

“Onde você vai usufruir o que conquistou e para mim, é a época mais bonita do ano. Você está colhendo o que plantou, mas o que você plantou? Se você passou a vida inteira percorrendo por algo que não era aquilo? Feliz é daquele que realmente acha um fluxo e segue mais tranquilo”. 

Retrato em aquarela. Técnica preferida da artista. (Foto: Arquivo Pessoal)As pessoas que conseguem isso é, para a artista, as que souberam se ouvir, se pesquisar e no estalo, tiveram coragem. Não que a Odontologia, para ela, tenha sido um erro. Se fez necessária para tecer o conforto e maturidade, mas encerrou sua função quando Hyali descobriu qual era seu papel na engrenagem da vida.

“Quando você entende qual é a sua função que faz a máquina girar… O universo depende de você, desse funcionamento e quando você não se encaixa, aquilo não flui. Você perde a sua função dentro da sua evolução e se descobrir é o que vai fazendo as pequenas alegrias. A felicidade é o montante destas pequenas alegrias”.

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