O dentista de 1 bilhão de reais

Quando decidiu seguir a carreira de dentista, nos anos 70, o paranaense Geninho Thomé não tinha a menor pretensão de fazer fortuna. Estudou odontologia para consertar alguns sorrisos e, se sobrasse algum dinheirinho no fim do mês, melhor. E assim foi levando a vida. Abriu o primeiro consultório na cidade de Santa Helena, no extremo oeste do Paraná, e, mais tarde, especializou-se em implantes, então coisa de gente rica. Três décadas depois. Geninho Thomé é um dos 54 bilionários brasileiros, com fortuna estimada em 1,2 bilhão de reais. Ele é dono da sétima maior fortuna do mercado de saúde — e, sem grandes surpresas, o único dentista de uma lista recheada de médicos, engenheiros, economistas. A fonte da fortuna de Geninho é a Neodent. fabricante de implantes dentários que ele fundou em 1993 e vendeu à suíça Straumann, líder mundial no mercado de implantes, em duas parcelas — de 550 milhões e 680 milhões de reais. O último cheque foi assinado no início de abril.

Como uma desconhecida fabricante de implantes dentários pôde fazer de seu fundador um bilionário? O Brasil é a pátria dos implantes. Segundo a associação da indústria de equipamentos médicos, cerca de 2,5 milhões de implantes são usados por ano no Brasil, o que coloca o país na posição de segundo maior mercado do mundo, atrás dos Estados Unidos. Mas com maiores taxas de crescimento — cerca de 15%, ante 10%. A Neodent é a líder do mercado brasileiro, com 37% de participação, o que garantiu a ela um faturamento de 258 milhões de reais em 2014. Já a Straumann é uma gigante mundial presente em 70 países, com capital aberto na bolsa da suíça e faturamento equivalente a 2,2 bilhões de reais. Sua maior e mais importante operação hoje é a Europa, onde os implantes já são amplamente difundidos e cuja demanda, portanto, está estagnada. Nesse contexto, investir no Brasil foi uma escolha lógica — e a Neodent virou o alvo preferido.

Geninho Thomé começou a fabricar implantes depois de ir a um curso de especialização nos Estados Unidos e constatar que fabricá-los não era nada de outro mundo. Mas, no Brasil, os pouos implantes disponíveis eram importados e custavam mais de 1000 reais, o que reduzia muito o público potencial. Thomé importou a tecnologia e as máquinas do exterior e as colocou em seu consultório para fabricar implantes por conta própria — eles consistem basicamente num pino de titânio revestido de esmalte e encaixado na mandíbula do paciente. Mesmo com o processo totalmente artesanal. o preço médio dos implantes caiu quase 80%. Aos poucos, a novidade se espalhou entre os colegas de profissão, que passaram a comprar as peças de Thomé. “Eu não tinha nenhuma ambição de fazer uma grande empresa. Queria apenas atender às minhas necessidades”, diz. Meio que sem querer, Thomé conseguiu mudar a cara do mercado e permitir que uma fatia maior da população pudesse pagar pelos implantes. Quando ele começou, as peças custavam de 500 a 1000 dólares. Hoje, são vendidas por uma média de 100 reais.

Em 1998, Thomé construiu a primeira fábrica, em Curitiba, para produzir 20000 peças por ano. Em 2007, abriu a unidade atual, hoje com capacidade de 1,3 milhão de peças. A Neodent havia virado a maior do setor no país, mas ainda era administrada por Thomé, responsável pelo desenvolvimento dos produtos, e por Clemilda Thomé, sua mulher na época, responsável pelas finanças da companhia. Com margem operacional de 40%, Thomé rechaçou investidas de fundos de investimento e de grandes empresas do setor. Mas o mercado começou a mudar. Em 2009, a segunda maior fabricante de implantes do país, a SIN Implantes, foi comprada pelo fundo de private equity argentino Sourthern Cross. De lá para cá, abriu unidades em 14 países e acelerou também o crescimento no Brasil — onde já tem 25% do mercado, ante cerca de 37% da Neodent. Ao mesmo tempo, Thomé percebeu que fazer da Neodent uma empresa global de implantes dentários era mais difícil do que ele imaginava. “Comecei a abrir unidades em outros países e percebi que não teria dinheiro nem capacidade de gestão para competir lá fora”, diz Thomé. Com tudo isso na mesa, ele viu que era hora de atrair um sócio para continuar a expansão da empresa.

O contrato de aquisição da primeira parte da Neodent pela Straumann foi assinado em 2012, para a compra de 49% das ações por 550 milhões de reais. Nele já estava prevista uma opção de compra de mais 26% em 2015 e o restante em 2018, mas a Straumann preferiu antecipar as coisas. Pelo acordo fechado em abril, Thomé continuará na empresa por mais dois anos, como presidente científico. “Ele desenvolveu um produto de qualidade e acessível aos brasileiros. Nosso produto é mais caro. O da Neodent é mais competitivo nesse mercado”, afirma o suíço Mattias Schupp, desde de dezembro presidente da Neodent. Apesar da aquisição, as duas marcas serão independentes, até porque atuam em segmentos diferentes. Os planos de internacionalização da companhia vão se acelerar. Neste ano, a Neodent vai abrir filiais no Canadá, na Colômbia e na Argentina. Pelos planos da Straumann, 40% do crescimento deverá vir de fora do Brasil. Hoje, apenas 10% da produção da companhia é exportada.

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