30 tons de cinza #1 – Método de Clark

Alguns dentes estão anatomicamente dispostos de tal forma que, numa tomada radiográfica ortorradial, a imagem resultante acaba apresentando sobreposição de raízes e canais. Isso, em si, já inviabiliza a interpretação radiográfica. Endodontistas sabem do que eu estou falando 🙂 . O método de Clark visa resolver esse e outros problemas.

Charles A. Clark em 1910 usou um princípio físico chamado paralaxe pra solucionar o problema da sobreposição em tomadas radiográficas. É mais ou menos o seguinte: quando se olha alguma coisa, o que você enxerga depende do ângulo pelo qual você está olhando. Em imagens radiográficas é mesma coisa: a imagem obtida depende do ângulo de incidência do feixe de Raios X sobre o filme. Clark observou o seguinte:

  1. Quando 2 objetos, A e B, estão alinhados em relação ao observador, o objeto mais próximo vai encobrir o mais distante.
  2. Se o observador se desloca pra qualquer lado:
    a) O objeto mais próximo se desloca para o lado contrário ao do observador.
    b) O objeto mais distante se desloca para o mesmo lado do observador.

Princípio da Paralaxe

Entenda os objetos como dentes (ou canais) e o observador como você mesmo, e voilà. O resultado da técnica é a obtenção de 2 radiografias com incidências diferentes que, se comparadas, dissipam a dúvida que havia. A primeira radiografia é tomada de forma convencional, em incidência ortorradial (o feixe central de Raios X incide paralelamente às faces proximais dos dentes) e, a segunda radiografia, é feita alterando-se o ângulo horizontal de incidência para mesiorradial ou distorradial.

Indicações do método de Clark:

Na dissociação das raízes ou dos canais de um dente

A sobreposição de raízes ou canais na imagem radiográfica é um problema comum em primeiros pré-molares superiores, molares superiores e molares inferiores. As incidências recomendadas são:

Dente Incidência Horizontal
Pré-molar superior (*) Mesiorradial
Molar superior (raiz MV) Distorradial
Molar inferior (raiz M) Distorradial

Técnica de Clark

Método de Clark: dissociação de canais
Método de Clark (molar inferior): dissociação de canais

(*) Na dissociação dos canais de pré-molares superiores, pode ser muito útil alterar, também, o ângulo vertical de incidência do feixe de Raios X. Isso causará um encurtamento da imagem, sendo que a raiz palatina, por estar mais próxima do filme, sofrerá um menor encurtamento que a raiz vestibular, evidenciando melhor seu terço apical.

Na localização vestíbulo-palatal (lingual) de dentes inclusos e corpos estranhos em maxilas e mandíbula

Em região posterior de mandíbula prefere-se o método de Miller-Winter para localizar dentes inclusos, mas nas demais regiões o método de Clark é capaz de mostrar o posicionamento vestíbulo-lingual de dentes não-irrompidos. A técnica é a mesma usada na dissociação de canais: uma radiografia com incidência ortorradial e outra radiografia com incidência mésio ou distorradial. Se o dente estiver por V, sua imagem se deslocará no sentido contrário do observador. Se o dente estiver por P (L), sua imagem se deslocará no mesmo sentido do observador.

Em resumo:

  • Se a incidência é distorradial e a imagem se desloca para distal, o dente está por P (L)
  • Se a incidência é distorradial e a imagem se desloca para mesial, o dentes está por V
  • Se a incidência é mesiorradial e a imagem se desloca para distal, o dente está por V
  • Se a incidência é mesiorradial e a imagem se desloca para mesial, o dentes está por P (L)
Método de Clark: localização de dentes inclusos
Método de Clark: localização de dentes inclusos

Um método parecido, o método de Johnson, utiliza o conceito da paralaxe para localizar caninos inclusos em maxilas. Porém usa-se uma única película para as 2 tomadas radiográficas, com metade do tempo de exposição recomendado para cada tomada.

Na localização de lesões ou pontos de reparo anatômicos em maxilas e mandíbula.

Alguns pontos anatômicos, pela localização e aspecto da imagem, pode ser confundidos com lesões, cistos, etc.. Nesse sentido, merecem destaque o forame mentual e o forame incisivo.

O forame incisivo pode aparecer como 2 imagens radiolúcidas, cada uma de um lado da sutura intermaxilar, ou como 1 imagem radiolúcida sobreposta à sutura. Principalmente no segundo caso, quando a imagem do forame incisivo se sobrepõe ao ápice de um dos incisivos centrais, os menos atentos podem confundi-la com uma lesão periapical. Nesse caso uma segunda radiografia com alteração do ângulo horizontal de incidência é capaz de sanar a dúvida.

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