Odontosecção #11- A Odontologia do impossível

Um dos problemas em trabalhar em locais com grande fluxo de pacientes e dentistas é assumir casos em andamento, cujo planejamento você não participou. Quando o caso é bem conduzido não há problema, e nessa clínica onde trabalho há uma conduta de trabalho bem legal e uma linha de pensamento, então os casos são tranquilos de trabalhar. O problema, e que tem sido cada vez mais recorrente nos tempos atuais é a procura do serviço por pacientes previamente tratados, sem finalização, e com sérios problemas de planejamento, execução ou ambos em suas bocas. O índice de iatrogenias odontológicas está enorme, e isso muito me preocupa pelo futuro da nossa profissão.

Para quem não conhece o centro de Belo Horizonte vai aqui uma breve descrição – imaginem um espaço limitado, com clínicas e consultórios odontológicos praticamente em todas as esquinas, clínicas essas de empresário e não dentistas, cobrando preços absurdamente baixos em vários procedimentos. Esse é o centro de BH e como deve ser em qualquer grande cidade Brasil afora.

Enfim. Tenho a filosofia de trabalhar sempre com a melhor qualidade possível e dispenso sim pacientes que buscam exclusivamente o preço. Não sou o Ricardo Eletro onde preço é tudo.

Chegamos então ao ponto chave dessa coluna. Neste um mês que estou trabalhando nessa clínica tive a oportunidade de atender pacientes de outros colegas cujos planejamentos e execuções dos casos chegam bem próximo à Odontologia do impossível! Os colegas vêm assumindo riscos absurdos em troca de alguns trocados, sem pensar no paciente, e pior, que o paciente acaba abandonado e com o pepino na boca e ainda jogando com a sorte pois a qualquer momento pode vir a ser processado.

Tudo a que me proponho a fazer na boca de qualquer paciente tem como princípio básico quatro fatores:

– eu sei fazer esse procedimento?
– o procedimento é adequado ao paciente?
– o paciente entende os riscos e os prós e contras e vai ser cooperativo?
– o procedimento tem embasamento teórico e literário? Qual a experiência com ele?

Seguindo essa conduta, tenho conseguido diminuir a praticamente zero o insucesso no tratamento e garantir a satisfação do meu paciente.

Citarei um caso específico para vocês terem uma ideia do que ocorre.

Atendi uma paciente com idade entre 35 e 40 anos, ou seja, bastante jovem, com perda dos elementos 12,11,21,22 e com séria atresia do segmento anterior da maxila. A paciente, procurando reabilitação com implantes, passou por alguns colegas, e vai que ela me mostra um orçamento onde um colega lhe propôs um enxerto único nessa maxila por um valor irrisório de R$1000,00.

A proposta do enxerto ósseo está totalmente correta. Não há como reabilitar a maxila dessa paciente com implantes sem a colocação de enxerto, mas por esses valores eu acho simplesmente impossível trabalhar! No caso de enxerto autógeno intra-oral seriam necessários dois acessos cirúrgicos em regiões de linha oblíqua da mandíbula para a retirada de dois blocos e consequentemente a fixação desses blocos com parafusos. Esse procedimento em si, honestamente, não consigo fazer por esses valores.

Outra possibilidade seria utilizar enxerto homólogo de banco de ossos, onde cada bloco custa cerca de R$250 a R$300, e novamente acho inviável praticar os mesmos valores.

A terceira possibilidade que me ocorreu para a reabilitação dessa maxila seria uma regeneração óssea guiada com PRF e tela de titânio, mas esse procedimento é caro e portanto descarto para essa paciente.

Voltando então portanto aos dois planejamentos que seriam financeiramente viáveis com enxertos em bloco, autógeno ou homólogo, fico me perguntando como o colega que fez o orçamento para a paciente consegue praticar esses valores, e o pior, em quais condições seriam realizados os procedimentos nessa paciente.

Obviamente que todos precisamos trabalhar e colocar o dinheiro dentro de casa, mas será que vale a pena proceder de tal maneira, muitas vezes abaixando os padrões de qualidade, biossegurança, desrespeitando a biologia em troca de alguns trocados com tratamentos que, pelos valores relatados, para não se dizer impossíveis, bastante improváveis de solucionar os problemas daquele paciente?

Devemos fazer “mea culpa” e cada um fazer a sua parte em prol da nossa profissão, caso contrário, eu temo, e muito, pelo nosso futuro.

Até a próxima.

Compartilhe essa postagem com seus amigos
  • 39
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Comente

Comentários

2 comentários em “Odontosecção #11- A Odontologia do impossível

  • 12 de novembro de 2014 em 18:48
    Permalink

    Amigo, nem vou tão fundo. A qualidade do que vemos diáriamente me faz temer pela Odonto, pelo paciente e pelo colega (judicialmente). Não vou ser falsa dizendo que nunca errei, mas SEMPRE pauto minhas decisões apoiada nas bases que vc mencionou. As clínicas geridas por empresários e sem um diretor clinico responsável são cada vez mais nocivos a nossa profissão. Pena!

    Resposta
  • 12 de novembro de 2014 em 18:48
    Permalink

    Amigo, nem vou tão fundo. A qualidade do que vemos diariamente me faz temer pela Odonto, pelo paciente e pelo colega (judicialmente). Não vou ser falsa dizendo que nunca errei, mas SEMPRE pauto minhas decisões apoiada nas bases que vc mencionou. As clínicas geridas por empresários e sem um diretor clinico responsável são cada vez mais nocivos a nossa profissão. Pena!

    Resposta

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *