Entendendo os adesivos dentinários simplificados com condicionamento ácido total e como selecionar um, baseado em evidências científicas


O texto abaixo é de autoria do Prof.Dr. Carlos Francci ?? Depto de Biomateriais e Biologia Oral/USP

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Embora os pacientes em geral acreditem que a maior vantagem das resinas compostas é a estética – por permitirem restaurar o dente de forma imperceptível, o maior benefício mesmo foi a conservação dos tecidos dentais sadios. As restaurações confeccionadas em resina composta permanecem aderidas aos tecidos dentais através da união micro-mecânica ou mesmo química, alcançada pelo uso dos sistemas adesivos. Diferentemente, as restaurações em amálgama permaneciam retidas mecanicamente às cavidades geometricamente preparadas para esse fim, às custas de desgastes de estruturas de esmalte e dentina sadios, as chamadas ??formas de retenção?.

Do ponto de vista materiano, o ponto de partida para o estudo dos atuais materiais restauradores é a correta utilização dos sistemas adesivos, condição de fundamental importância para que as restaurações possam permanecer aderidas aos tecidos dentais de forma satisfatória ao longo do tempo. Esses sistemas são constituídos por diferentes componentes (ácido, primer e o adesivo propriamente dito) que interagem com cada um dos tecidos duros dentais (esmalte e dentina) envolvidos nas cavidades que requerem a aplicação da terapêutica restauradora, de acordo com suas características histomorfológicas.

Para o uso da técnica de Condicionamento Ácido Total existem, atualmente, disponíveis no mercado dois diferentes tipos de sistemas adesivos:

Os sistemas mais complexos são aqueles que possuem três distintos componentes, os Sistemas Adesivos de Múltiplos Frascos.

O primeiro passo é, justamente, a aplicação do ácido fosfórico que prepara os tecidos para aplicação do sistema adesivo.

O segundo passo consiste na aplicação de um Primer, constituído por monômeros hidrofílicos dissolvidos em um solvente orgânico, que facilita a penetração do sistema adesivo em dentina úmida.

O terceiro passo consiste na aplicação do Bond(o Adesivo propriamente dito), formado por monômeros hidrofóbicos capazes de selar a interface adesiva. Como a dentina é um tecido intrinsecamente úmido, parece bastante lógico que haja a aplicação de um Primer com características hidrofílicas – uma substância com moléculas que possuem afinidade pela água e, portanto, capazes de infiltrar a dentina úmida e envolver as fibrilas colágenas expostas pela desmineralização promovida pelo condicionamento ácido. Os monômeros hidrofílicos dos primers são infiltrados para o interior dos tecidos dentais através dos solventes que funcionam como veículos para a condução desses monômeros. Ao penetrarem para a intimidade dos tecidos, os monômeros dos primersocupam o espaço antes pertencente às moléculas de água, que são evaporadas juntamente com o solvente através da aplicação de um leve jato de ar. Os monômeros hidrofóbicos do bondligam-se aos monômeros hidrofílicos já infiltrados e selam a interface adesiva, repelindo a água proveniente dos túbulos dentinários e da cavidade oral e evitando assim a hidrólise da interface.

O outro tipo de Sistema Adesivo utilizado através da técnica etch-and-rinse é o Sistema Adesivo Simplificado, que possui apenas dois componentes: após o condicionamento com ácido fosfórico, os monômeros hidrofílicos do primer e os hidrofóbicos do bondestão contidos em um mesmo frasco, sendo assim aplicados simultaneamente às cavidades (sempre mantidas úmidas após a lavagem do ácido). Esta família de adesivos é atualmente a mais utilizada pelos clínicos brasileiros.

Em ambos os sistemas, os monômeros hidrofílicos estão imersos em solventes (veículos), normalmente água, etanol, acetona ou uma mistura de dois ou até mesmo dos três.  Primers que possuem água em sua composição são menos críticos às variações da umidade dentinária, pois existe a re-hidratação do tecido pelo próprio solvente do sistema adesivo. Quando o solvente empregado é o etanol, ou mais ainda quando é a acetona, o controle da umidade é bastante sensível e deve ser respeitado. Nesses casos, a dentina deve estar úmida o suficiente para que os solventes possam carrear os monômeros hidrofílicos para o interior dos tecidos. Nos sistemas adesivos com base em acetona, deve-se aplicar mais de uma camada do sistema adesivo, pois como se trata de uma substância muito volátil, há possibilidade extremamente alta do solvente evaporar antes da permeação dos monômeros para o interior dos tecidos.

Uma das maiores questões que escutamos dos cirurgiões dentistas é como selecionar um sistema adesivo. Para facilitar o entendimento vamos tomar o OneCoat Bond SL, da COLTENE, como exemplo. A seguir levantamos uma série de requisitos que, em conjunto, podem indicar um bom sistema adesivo.

Antes de tudo é preciso buscar evidências científicas para que sua escolha seja fundamentada. Estudos laboratoriais, embora sejam limitados frente a um estudo clínico de longevidade, quando analisados em conjunto representam um bom indício para a seleção no mercado odontológico.

Resistência Adesiva: Resistência adesiva imediata é um requisito essencial, mas precisa ser tomada em conta juntamente a estabilidade dessa resistência com o passar do tempo, para garantir a longevidade da interface. Vamos tomar como exemplo o estudo de Dos Santos PA e colaboradoras1. Neste estudo as autoras avaliaram três sistemas adesivos de acordo com a tabela 1, avaliando o resultado nas primeiras 24 horas e após estresse por 500 ciclos de termociclagem, tanto em esmalte, mas principalmente em dentina, que é o substrato mais crítico.

Tabela 1 ?? Médias (MPa) e desvio padrão de resistência adesiva ao cisalhamento dos diferentes grupos estudados em esmalte e em dentina.

Sistemasadesivos Esmalte Dentina
Em 24h Após Termociclagem Em 24h Após Termociclagem
Single Bond 16.96(5.84)bcd 21.60(5.15)ab 17.46(2.42)abc 12.79(6.91)cd
Prime & Bond NT/NRC 17.20 (2.88)bcd 20.67(7.09)ab 11.93(4.62)d 13.94(6.19)cd
One Coat Bond 25.66(5.63)a 24.20(6.87)a 17.53(6.15)abc 19.38(7.82)abc

Letras diferentes indicam diferença estatisticamente relevante

? importante notar que o OneCoat Bond mostrou alta resistência mecânica ao cisalhamento nas condições do estudo, tanto em esmalte, quanto em dentina. Isso é uma vantagem sim, mas a sua maior vantagem foi manter esta resistência adesiva depois de ser estressado com a ciclagem térmica, tanto em esmalte, mas principalmente em dentina. Estes dados foram similares ao do estudo de Homa, MRP e colaboradores2, comparando o Prime & Bond NT e o OneCoat Bond após 30 dias de armazenagem em água, quanto à resistência mecânica ao cisalhamento (tabela 2)

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