20/04/2014

Um dia na vida de um dentista qualquer

“ATENÇÃO: Esse conto é ficcional. Qualquer semelhança com fatos, acontecimentos ou situações aqui descritos será mera coincidência.”

Sete horas da manhã. O despertador insiste em tocar cada vez mais alto e me tira da cama, mas eu queria mesmo era dormir até mais tarde. Ir pra academia, dar uma volta no parque, brincar com o cachorro… Mas o soneca de tira do devaneio e me faz lembrar que estou atrasada pro trabalho. Visto a roupa branca, como apressadamente e vou pro consultório, onde um longo dia de trabalho me espera.

Na realidade quem espera sou eu. Espero o paciente que se atrasou 20 minutos, afirmando que “acabou perdendo a hora, né? Sabe como é, tomou umas cervejinhas a mais naquele churrasco da noite anterior e dormiu demais”. É. Nem precisava dizer, dada a quantidade de carne nas proximais dos dentes. Sono demais e fio dental de menos. E vamos fazer aquela restauração de classe II na distal do 36/mesial do 37 em que a língua insiste em tirar a matriz e a cunha de posição… Chama auxiliar, suga aqui, afasta ali e, depois de muito contorcionismo, VOILÀ! Missão cumprida! Mas é só a primeira luta do dia…

Segundo paciente: Tratamento de canal. Na hora da anamnese, pergunto se a paciente toma algum tipo de medicação. Ela nega veementemente, e aos poucos vai se lembrandoque toma só o remédio da pressão. E do colesterol. E da tireóide. E anticonvulsivante. E um “que o cara da farmácia passou pro dente mas que não lembra o nome”. E pergunta: “ – Dotôra, posso tomar NAVAGINA se eu tiver MISTURADA?” Aí tive que ter cuidado pra não soar pedante quando respondi que não, não teria problema algum em tomar Novalgina durante a menstruação… E comecei o atendimento. Era uma biopulpectomia de um canino com indicação protética, então, já que todos os passos foram feitos com sucesso, procedi à obturação do conduto. Odontometria, prova do cone e só faltava a condensação lateral. Pedi pra auxiliar me passar a caixa de cones acessórios, e ela diz que tá na autoclave. NA AUTOCLAVE? “É, dotôra. Deixei aquela caixinha cair no chão e coloquei pra esterilizar…” Daí ela tira aquela maçaroca cor de rosa do pacote e diz que não sabia o que aconteceu. O sangue subiu à cabeça mas não falei nada, só pedi pra pegar outra caixa no estoque. E quis chorar.

O último paciente daquela manhã era uma odontopediatria. Uma criança de 5 anos com dois molares inferiores cariados, que eu já sabia com meia hora de antecedência que havia chegado pelo volume dos berros ouvidos até o quarteirão seguinte. Toda a minha psicologia infantil foi gasta com o pequeno rapaz, que com algum poder de persuasão (também conhecida como chantagem) da mãe resolveu entrar no consultório. Mostra aqui, brinca ali, e chega a hora do procedimento, que obviamente a criança não quis colaborar. Uma hora, muitas lágrimas, mordidas no dedo e uma enxaqueca (em mim) depois, sai a criança feliz e contente com um balão feito de luva de procedimento e dois ionômeros de vidro nos dentinhos.

Corro pro banco pra pagar as contas: Dental, dental, dental, protético, aluguel… E dou de cara com um antigo paciente na fila que resolve querer uma consulta ali. “-Olha, dotôra, como essa gingiba tá inframada?” Não, meu senhor. Não quero ver sua gengiva inflamada, ainda mais no meio da agência. Sugiro marcar uma consulta (que ele quer que eu marque ali) e dou o número do telefone do consultório, pra onde definitivamente ele não vai ligar até que sinta os dentes moles ou muita dor. Corro pra casa fazer o almoço. Só dá tempo pra um macarrão com molho, que magneticamente é atraído pelo branco da roupa e lá vou eu tomar um banho na velocidade da luz e me trocar pro segundo round.

Paciente chega no consultório pra “tirar o modes da perereca”. Hein? Levo alguns segundos pra entender que ela queria moldar a PPP (prótese parcial provisória). Serviço feito, paciente satisfeita. Segue a tarde com um ritmo pesado de trabalho: Avaliações, diagnósticos, terapia periodontal, exodontias… Ah, uma extração de pré-molar superior sob indicação ortodôntica que parecia fácil, mas que fraturou a raiz palatina e levou mais de uma hora pra sair. Uma restauração de anterior que demorou alguns minutos a mais porque a matriz de poliéster simplesmente desapareceu da bandeja magicamente, e que tive que condicionar duas vezes pois o paciente tossiu no meio do procedimento. Mas quem nunca, né?

Exausta, sem parar nem pra um café, dou meu dia de trabalho por encerrado e saio em direção à minha casa. Sem chance de ir pra academia nesse nível de cansaço, resolvo passar no supermercado pra comprar algumas coisas. Escolho rapidamente, e enquanto aguardo a minha vez na fila do caixa, ouço sem querer a conversa do casal à minha frente: “-Tá sentindo o cheiro de algo estragado aqui?” “-Não é estragado, é aquele fedor de consultório de dentista…” Faço cara de paisagem quando eles se viram pra mim, afinal, nem vale a pena pensar em uma resposta. E nem tem resposta pra dar. É isso. Depois de um dia de trabalho tou com ~~fedor de dentista~~.

Chego em casa, tomo um longo e demorado banho, como e vou deitar. Coloco o despertador pra tocar, achando que vai ser um novo dia amanhã. Só que não. :D