A sua saúde não é propriedade médica

Terrível como “o mundo” tenta te convencer a todo instante que somente a Medicina é a ciência capaz de te preencher completamente e enraizar a sua alma. Porque é a Medicina que lida com a morte (e de uma forma, no mínimo curiosa, a morte se torna aqui algo-símbolo de positivismo); porque é a medicina que é a tutora dos enfermos; porque é a medicina que alivia e conforta & bla bla bla. No quesito “cuidado à vida”, a Odontologia é deixada bem distante, porque é dela somente o tratamento da cárie, da má-oclusão e da doença periodontal, não é mesmo? Deixemos as coisas sérias para quem realmente entende de vida, de saúde.

Depois de um certo tempo você percebe que esse tipo de discurso moralista faz sentido numa sociedade habituada (até hoje) a extrair seus dentes como medida profilática. Faz sentido também creditarem a um cirurgião dentista buco-maxilo ou a um estomatologista titulação-social de “médico” só porque “é mais seguro e conveniente ter um médico” no centro cirúrgico ou diagnosticando por aí, não é mesmo? Tente perguntar a um politraumatizado de face qual a graduação de quem lhe operou. Depois tente convencê-lo que foi um dentista que fez todo o trabalho.O resultado desses questionamentos são assustadoramente tristes e retóricos, por sinal, e a culpa é do cirurgião-dentista, que não aproveita o momento da sua consulta para esclarecer uma coisa tão importante dessa ao paciente. Falta aqui amor próprio, honra pelo que se faz, entende? Vamos ofereçer ao dentista somente a capacidade de abrir e fechar buracos. ? o que lhe basta! Esse tipo de dinâmica é tão interessante que passa a ser intrigante como assalariados fazem das tripas o coração para pagaram por consultas caríssimas de médicos… Agora, hesite dizer em consulta odontológica, isso é quase uma ofensa moral. Dentista não é medico, não é mesmo, dê a ele o direito, somente, de fazer orçamentos, ora bolas, veterinários fazem consultas, dentistas N?O!

Com a maturidade, você acaba percebendo que lidar com a vida das pessoas representa muito mais do que estabilizar pacientes graves, lidar com sangue e substância supurativa pelo seu rosto durante uma apendicectomia de urgência ou dar notícias de prognósticos ruins. Eu percebi que uma boca mal cuidada muitas vezes pode ser uma sentença de morte, do tipo pior que existe, a morte social, aquela morte em vida. Pena que o mundo tem olhos pequenos demais pra esse tipo de coisa e grandes olhos para coisas tão minutamente medíocres. Nos tornaremos seres melhores e poderemos ajudar uma infinidade de gente quando pudermos compreender que a saúde é feita por profissionais da área de saúde e não somente por médicos; ele é só mais um partícipe de todo o processo e nesse grande jogo de se fazer saúde e que não há nenhuma classe mais importante do que outra. 

***

O espetacular texto acima foi escrito por Guilherme Cruz Ferreira (foto ao lado), graduando do 6º período e representante da Turma 2014-A da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Goiás (FO/UFG) diretamente para o novo projeto do VDD, onde textos relacionados à Odontologia, enviados por nossos leitores serão avaliados e os melhores serão publicados aqui, para que os nossos milhares de leitores possam ver e avaliar.

Se você é dentista ou acadêmico de Odontologia, gosta e sabe escrever sobre qualquer coisa relacionada à nossa nobre arte, mande seu texto para VIDADEDENTISTA@GMAIL.COM com o título “Texto do Leitor”, anexando uma imagem relacionada ao texto e uma foto sua, para ilustrar e dar os devidos créditos a quem escreveu. Quem sabe no futuro você não faça parte do time de escritores do VDD ??? 😀

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Comentários

18 comentários em “A sua saúde não é propriedade médica

  • 30 de agosto de 2012 a 19:38
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    ?timo texto! Mas ainda é cheio de mimimi odontológico! Não critico o colega, não! Mas acho que deveríamos estender esta crítica aos nossos pacientes. Não é o médico dententor na sua saúde! è o próprio paciente, suas atitudes e uma equipe de saúde que visa lhe proporcionar qualidade de vida. Esta aliás é uma palavra muito na moda hoje em dia e que poucos têm acesso de fato! Enquanto nós, cirurgiões dentistas e os demais profissionais de saúde não soubermos valorizar o nosso trabalho, explicando ao paciente sobre os objetivos do tratamento, os benefícios, os malefícios de não o realizar, será sempre mimimi odontológico. E aos olhos do paciente soa como um certo recalque, inveja por não ser médico! Hoje em dia é necessário se fazer um "marketing" a respeito da importância do tratamento odontológico, mas cadê o CFO, pra colocar na Globo uma campanha sobre prevenção do câncer de boca? Cadê a explicação pra população sobre a correlação entre doença periodontal e doenças sistêmicas? No material de divulagação para pacientes, por que o cirurgião dentista não pára de vender sorrisos e começa a vender saúde, bem- estar, qualidade de vida, boa aparência, segurança ao comer e falar? E o mesmo vale para os nossos colegas fisioterapeutas, nutricionistas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais.

    Responder
  • 30 de agosto de 2012 a 21:00
    Permalink

    Excelente e esclarecedor texto do meu grande amigo Guilherme!
    ? o tipo de coisa que nos faz realmente pensar na nossa atuação como cirurgião-dentista
    e profissional de saúde.
    De fato, cabe apenas a nós mesmos, e a graduação devia ter o papel de reafirmar aos futuros dentistas, o esforço para que sejamos mais valorizados pelos nossos pacientes e a sociedade como um todo. Acabar com o medo de dizer ao paciente que aquilo não é uma “macinha” ou uma “borrachinha” qualquer e que estudamos no mínimo 5 anos para podermos realizar aquele procedimento e que merecemos cobrar um preço justo inclusive na consulta inicial.
    Apesar de termos um conselho com muito mais resoluções para orientações profissionais que o CRM, por exemplo, infelizmente os não são bem organizados e empenhados com os problemas da classe. Por isso o maximo de incentivo à saúde bucal que temos na televisão são as propagandas de empresas como a Colgate que tem um poder enorme sobre nossos referidos conselhos.
    A meu ver o texto não é cheio de “mimimi odontológico” mas sim um alerta para que possamos sair desse comodismo. ? importante também não generalizar os acomodados. Os bons profissionais existem e estão sempre preocupados com a saúde do paciente como um todo.
    Parabéns, Guilherme!

    Responder
  • 31 de agosto de 2012 a 00:04
    Permalink

    Excelente e esclarecedor texto do meu grande amigo Guilherme!
    ? o tipo de coisa que nos faz realmente pensar na nossa atuação como cirurgião-dentista
    e profissional de saúde.
    De fato, cabe apenas a nós mesmos, e a graduação devia ter o papel de reafirmar aos futuros dentistas, o esforço para que sejamos mais valorizados pelos nossos pacientes e a sociedade como um todo. Acabar com o medo de dizer ao paciente que aquilo não é uma ??macinha? ou uma ??borrachinha? qualquer e que estudamos no mínimo 5 anos para podermos realizar aquele procedimento e que merecemos cobrar um preço justo inclusive na consulta inicial.
    Apesar de termos um conselho com muito mais resoluções para orientações profissionais que o CRM, por exemplo, infelizmente os não são bem organizados e empenhados com os problemas da classe. Por isso o maximo de incentivo à saúde bucal que temos na televisão são as propagandas de empresas como a Colgate que tem um poder enorme sobre nossos referidos conselhos.
    A meu ver o texto não é cheio de ??mimimi odontológico? mas sim um alerta para que possamos sair desse comodismo. ? importante também não generalizar os acomodados. Os bons profissionais existem e estão sempre preocupados com a saúde do paciente como um todo.
    Parabéns, Guilherme!

    Responder
  • 31 de agosto de 2012 a 03:25
    Permalink

    Uauuuuu, ele é impressionante não é mesmo? E eu lido com isso todos os dias. Realmente o texto é espetacular e relata toda realidade que ainda existe nos dias de hoje. ? uma pena, mas eu creio que isso um dia pode mudar, então, vamos fazer a diferença pessoal. Isso a?!

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  • 31 de agosto de 2012 a 17:02
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    Guilherme, parabéns pelo texto.
    Acrescentaria que faltam aos profissionais de saúde, de qualquer garduação, olhar o sujeito que está doente pelo prisma do cuidado. O cuidado é sempre integral e integrado e independente de onde se localiza – da dor, da lesão, do trauma – da extensão temos que ser acolhidos e tratados na condição de seres humanos, permeados por nossos medos, anseios, desejos e expectativas enfim: somos sempre inteiros, por mais que nós queiram partidos!

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