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O Dentista – Esse ser estranho

DENTISTA ESTRANHO

Depois de encerrada a série “Os Especilistas“, a Dra. Elaine Batista fala agora a todos nós profissionais da Odontologia. Leia. Releia. Imprima. Porque é PERFEITO:

O título de hoje é “Dentista- Esse ser estranho”. Por que convenhamos que pra escolher uma carreira feito essa tem que ser por MUITO amor. Tinha um chefe que disse que “fez Odonto porque na época que ele usou aparelho o dentista era O CARA na cidade”.

Com a número de faculdades de Odonto pegando gente no laço, hoje ser dentista não traz glamour nenhum. Dinheiro (pra ficar rico) com odontologia, só pros Indiana Jones que desbravam cidades longe dos grandes centros. Se você quer morar perto da mamãe ou PRECISA de um shopping pra viver, vai ter que trabalhar demais pra manter algum padrão de vida. Ou ganhar na mega-sena. Ou dar o golpe do baú. Ou já nascer rico.

Não bastasse nosso ganha pão ser baseado em prevenir e tratar afecções usualmente malcheirosas, acompanha o nosso objeto de trabalho (a boca) um paciente que já vem carregando uma expectativa de dor e sofrimento. Quer dizer,tem nego já chega achando que tá pagando caro pra sofrer, que o seu trabalho é uma mamata (afinal de contas você não trabalha no sol quente, mas sentado e numa sala com ar condicionado) e que é só abrir a boca (que nem capô de carro) e trocar as “benturações”. Quem nunca ouviu algo do tipo: “Nooooossa, dotôr… 50 real numa massinha??? Curioso que tem mulher que acha caro 50 reais numa “massinha” que vai durar anos na boca, vai ser usada em TODAS as mastigações, ajuda na fonética, devolve função e estética, mas chega no consultório com o cabelo fedendo a formol da “escova depressiva de açúcar”, que custou 200 reais no salão da vizinha e vai durar 15 dias. Não é fácil.

O nosso sonho é com a PREVENÇÃO. A gente queria que todo mundo viesse periodicamente, fizesse um tratamento periodontal básico, esporadicamente uma resina ou outra (acidentes acontecem) e todo mundo ficava feliz. O paciente, gastando pouco, permanecendo em tratamento durante pouquíssimo tempo e a gente realizando um trabalho preventivo e de educação. Em alguns casos ortodontia pra alinhamento e correção de mordida. Todo mundo ficava feliz. Mas esse tipo de paciente (apesar de estarem em número crescente) não corresponde a 10% dos pacientes que a gente atende.

O tal do tratamento curativo ainda é o rei da lotação das nossas agendas. E entendam por curativo RESOLVER PROBLEMAS que na maioria das vezes poderiam ter sido evitados pelos próprios pacientes. Cárie, cárie, cárie, doença periodontal, perda precoce de dentes, trauma (acidental e oclusal) e todos os problemas que começam aí. Uma coisa é quando o paciente não tem acesso à informação e/ou formas de prevenção adequadas (infelizmente no Brasil hoje esse tipo de paciente AINDA é comum). Outra coisa bem diferente é quando a pessoa tem instrução quanto à saúde bucal, tem acesso à informação e ainda chega no consultório com cáries imensas (principalmente proximais) porque tem PREGUIÇA de escovar e usar o fio dental.

Olha, me perdoem, mas esse paciente eu não tenho pena de atender, mesmo com dor. Eu tenho pena sim, do estado que a pessoa chega, relegando sua própria saúde a segundo plano em detrimento de qualquer outra coisa. Não existe isso de “Não ter tempo de cuidar da boca”. Tem tempo de levar o carro na oficina, tem tempo de tomar uma no boteco da esquina, tem dinheiro pra comprar um maço de cigarro, e vem com papo de “não tenho dinheiro nem tempo pra escova e fio dental”. Ah, por favor. São CINCO MINUTOS num dia de 24 HORAS. Uma higienização bem feita com escova e fio dental durante 5 minutos, principalmente antes de dormir, garantem sono tranquilo e dinheiro no bolso do paciente. Já tive paciente com saúde periodontal invejável que escovava os dentes com sabão brilhante por não ter dinheiro pro creme dental (não tou recomendando isso, tou dizendo que pra quem QUER tem jeito). Não cuidou? Agora é hora de pagar o preço. E entenda como preço, além do custo monetário, o custo de tempo e o desconforto que a grande maioria tem da cadeira do dentista. 

Passei por todo esse discurso saindo do tom irônico porque às vezes a gente tem que falar sério. Saúde é coisa séria. E o dentista, esse cara que estuda (e muito), gasta bastante pra se formar, pra montar um consultório, se atualizar ainda é tratado como subcategoria da saúde pelos próprios pacientes.  Pessoas morrem por problemas orais. Pessoas sofrem muito por doenças bucais.  E o dentista é o cara mau que você tem que pagar pra te fazer sofrer? Muito pelo contrário. Falo pros meus pacientes que eu sou a fadinha que veio pra resolver os problemas que eles próprios criaram. E eles nem podem discordar, já que eu faço quase que exclusivamente tratamento de canal.

Odontologia hoje é uma profissão de amor. Trabalha-se em odontologia por amor. Estranhos são esses seres que sabendo de toda a luta que é o dia a dia do consultório, se aventuram por esse mundo. Dentistas são sim, seres estranhos. E que bom que somos. O mundo é um lugar mais bonito graças a nós, esses seres. :D

Autor: Elaine

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