Os Especialistas – ODONTOPEDIATRA
Tem gente que diz que eu gosto de sofrer por ser endodontista, mas na minha opinião ninguém supera o Odontopediatra no quesito sadismo.
“-Ah, mas é lindo cuidar de criancinhas…”
Sim, é lindo. Mas dá um trabalho tão imenso que pra mim é meio no limite entre o amor e o heroísmo.
Juro que acho heróica essa turma que tem o dom da pediatria. E tem que ter mesmo, não é pra qualquer um dominar uma ferinha na cadeira. Precisa-se de todo um vocabulário próprio, uma estratégia… Enfim. Toda vez que me encaminham um paciente menor de 12 anos pra fazer endo de permanente eu penso em dois grandes manuais a serem lidos: A Bíblia e A Arte da Guerra. Sim, caríssimos, guerra. Eu juro que eu converso, explico na linguagem mais próxima da criança possível e mostro o consultório pra perderem o receio dos equipamentos. “Esse aqui é o canudinho que vai chupar a agüinha da sua boca, tá? Dá beijinho de passarinho pra você ver ele chupando a agüinha…” Mais que isso eu não tenho preparo. “Abre o bocão de Jacaré pra titia ver o seu dentão” e o choro começa a rolar solto. E cara, que gargantinhas, hein? Benzadeus.
Na verdade, a maior luta hoje pro odontopediatra, no meu ponto de vista, é lidar com os pais. Crianças são crianças e o medo delas vem daquela sala cheia de coisas estranhas que elas não estão acostumadas. Um rápido tour pelo consultório e voilà! Mas como fazer os pais entenderem que se eles ficarem fazendo terrorismo em casa o tratamento vai ser uma tortura pros filhos? “Se você não escovar os dentes, você vai ter que ir ao dentista e ele vai te dar uma injeção deeeeeeeeeeeeste tamanho…” Pronto. Tá feita a merda. O moleque vai espernear e chorar a 100 metros do consultório mesmo que seja só pra fazer uma limpeza, graças à imagem que os pais construíram do dentista. Outra categoria bacana é a que não tem controle sobre os filhos e não assume a responsabilidade sobre a higiene da criança.
Esses dias teve uma no consultório com um menino de 6 anos pra fazer endo no 16, 36 e 46, e falou com a cara limpa que “O menino não deixa escovar os dentes dele.” NÃO EXISTE ISSO, MINHA SENHORA. Alguém tem que mandar nessa relação e não é a criança! Daí na hora que eu fui fazer controle de voz pra conter a histeria da criança que estava sendo chantageada por ela durante o procedimento, a bonita não gostou (apesar de eu ter explicado ANTES que eu ia fazer e o porquê) porque achou que eu estava sendo dura com o filhinho. NÃO, FILHA. Dura é a dor que o moleque tava tendo em 3 dentes porque VOCÊ É NEGLIGENTE com a saúde do seu filho. Pegou o menino pelo braço e se foi. Nas palavras de Roberta Miranda, VÁ COM DEUS. É o mesmo tipo de mãe que vai bater no professor se o filho tirar nota baixa. Enfim.
Já atendi muita pediatria e precisava mesmo ter atendido até pra descobrir meus próprios limites. Não tenho filhos, não sei se terei a bênção de tê-los e acho que se vier a ter vou entender tudo sob uma ótica diferente. Tenho muito medo de odontopediatria por que são pequenas jóias de pais que amam. É muita responsabilidade, muito maior que atender aos adultos e por quem já temos que ser responsáveis o bastante. Tem que ter todo um cuidado pra não traumatizar a criança e fazê-la ter medo de dentista pelo resto da vida. Tem que gostar demais a despeito de todas as mordidas, cuspidas, berros, choros, xixis ou vômitos na cadeira. Tem que entender que o sorriso junto com o abraço depois do atendimento é muito maior que o valor do tratamento. Pra quem não é odontopediatra, como eu, isso beira o sofrimento. Mas eles chamam isso de amor. Então tá.
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Elaine Batista é mineira, atleticana e tem essa coluna semanal aqui no VDD onde fala com uma maestria descomunal como são as especialidades odontológicas. ![]()
Outros textos dela ~~~> O ENDODONTISTA – O PERIODONTISTA - O PROTESISTA
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