O Véu da Inocência

Há muito tempo atrás, em uma terra não tão distante assim, um jovem e bravo dentista recém-formado estava muito feliz. Naquela manhã ensolarada de fevereiro, uma promessa feita a um padre amigo começava a ser cumprida: 01 ano inteiro de atendimento gratuito em um Centro Paroquial, fazendo atendimento para pessoas carentes e, como um amigo costuma dizer, dentaduras para véias banguelas.

Começar em uma carreira nova é sempre estimulante. Não há cansaço, não há dor, não há ócio. Mais do que tudo, havia a vontade monumental de fazer o bem e ser a diferença, embora pequena, na vida daquelas pessoas.

Muitas extrações, amálgamas (sim, dezenas de amálgamas á La Baratieri foram feitos ali) e resinas foram feitos ali. Muitos sorrisos foram extraídos, não tão á força, mas com gentileza e carinho daquele Dom Quixote odontológico.

O véu de inocência do galante cavaleiro começou a ser removido por uma donzela não tão donzela assim. Dona Luzia era uma cliente entre tantas que sentou-se no surrado banco de madeira do Centro Paroquial. O que chamava a atenção na simpática velhinha era que ela conversava com todos com a mão á frente da boca, para esconder o seu sorriso.

– Jesus, aquela senhora ali vai me dar um trabalho… ?? pensou o dentista.

E assim os minutos passaram. Logo, chegava a hora de atender a D.Luzia. O ritual da mão na boca se manteve. Apesar de certamente estar sorrindo ao ser cumprimentada educadamente, a mão não fez menção de se mover da frente dos lábios. Imóvel se manteve, escondendo o desgosto aparentemente profundo da D. Luzia com o seu sorriso.

Finalmente D. Luzia se sentou na cadeira e transformou-se magicamente em Paciente. Após uma breve anamnese, chegamos á pergunta-chave desta nobre história: a queixa principal.

– Ah, doutor, sabe o que que é? Eu tenho MUITA vergonha dos meus dentes…

??Tadinha?,  pensou o dentista, ??deve estar em um estado deplorável.?

 Gentilmente, D. Luzia foi convencida a pousar a mão no colo e mostrar o que tanto a afligia ao dentista. De todos os cenários apocalípticos que foram desenhados mentalmente pelo dentista, NENHUM, digo, NENHUM MESMO se encaixava naquilo que a paciente mostrava.

Dona Luzia, do alto de seus 78 anos, possuía TODOS os dentes na boca. Dona Luzia, com seus cabelos grisalhos e olhos azuis, possuía um sorriso lindo, daqueles que todos nós um dia sonhamos em ter ao final da nossa vida.

Chocado com aquela visão inusitada, o dentista, meio gago, perguntou á ela o por quê da vergonha, se todos os dentes se encontravam ali e, mais importante, sadios, sem cárie ou doença periodontal presente.

NADA poderia ter ME preparado para o que eu ouvi:

– Doutor, eu tenho vergonha dos meus dentes porque lá no morro onde eu moro, todos me perguntam aonde é que foi que eu fiz a minha chapa. E eu fico com vergonha de dizer para as pessoas que são os meus dentes e não uma ponte móvel.

Naquela hora, a inocência acadêmica que me fazia crer que a Odontologia Reabilitadora sozinha salvaria o mundo caiu por terra. Ali eu me senti sozinho. Um soldado solitário com um fuzil na mão, frente á uma horda bárbara imparável.

Sim, nós, dentistas, ainda devemos executar o nosso trabalho, da forma mais digna possível. Sim, o mundo ainda precisa de resinas, facetas de porcelana, implantes e clareamentos à laser.

Mas nós precisamos desesperadamente de EDUCA??O!!!

Enquanto pessoa como a Dona Luzia existirem, não há sentido em tecermos loas à Odontologia. Tecnicamente,  existe um abismo colossal entre a técnica impecável dos nossos profissionais e o nosso objetivo maior, que é a saúde de um povo como um todo. Somos um país com um número de dentistas espetacular, mas com resultados pífios no que tange á saúde coletiva.

Essa é uma discussão sem fim. Não tenho a pretensão aqui de tentar acrescentar uma vírgula a mais do que os eminentes colegas que estudam e mandam nos caminhos da Odontologia nesse país. Quem sou eu… Mas de uma coisa, eu sei: enquanto pessoas como a Dona Luzia existirem, não poderá haver descanso.

Ah, o que a Dona Luzia foi fazer no consultório? Ela estava com uma dor de cabeça crônica e o médico mandou-a ver se era sinusite causada por algum dente. Nada disso. Ela tinha um siso (18) extruído por falta de antagonista inferior. Graças á isso, havia toque prematuro no 47, causando a famosa Sindrome da Dor-Disfunção da ATM. Tratamento? Exodontia do dente siso.

A dor de cabeça da Dona Luzia passou. Passou também a necessidade dela tomar remédios para artrite reumatóide, que tinham diagnosticado nela por causa da cefaléia. Eu ganhei uma cesta de frutas dela em agradecimento por ter ??curado? a sua artrite  e uma história para contar.

O resto, é história.

Esse texto foi escrito para o VDD pelo colega Marco Anubis, do Rio de Janeiro 😀 

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Comentários

7 comentários em “O Véu da Inocência

  • 15 de fevereiro de 2012 em 09:09
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    Que lindo, Anúbis!
    Shorey.

    Resposta
  • 15 de fevereiro de 2012 em 10:09
    Permalink

    bela história…
    infelizmente, a educação no Brasil ainda vai atrasar mto o desenvolvimento.
    e tbm devemos colocar a mão na consciência e pensarmos nossa conduta profissional: será que estamos educando nossos pacientes para se ter uma saúde bucal?

    grande abraço!

    Resposta
  • 15 de fevereiro de 2012 em 10:31
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    Como diria minha amiga Hebe Camargo: “lindo de viver”! Gostei mto msm. Parabens!

    Resposta
  • 15 de fevereiro de 2012 em 13:54
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    A ironia de transformar motivo de orgulho em vergonha!
    E vc conseguiu convencê-la a contar pra TODO mundo que seus dentes não eram chapa???

    Resposta
  • 15 de fevereiro de 2012 em 21:17
    Permalink

    Que fofa a Dona Luzia 🙂

    Resposta

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