18/04/2014

SOS - A Odontologia pede socorro

socorroAcabo de chegar de Belo Horizonte onde fui conhecer o maior evento da Odontologia do meu estado, que aliás se encerra hoje, o CIOMIG. Sinceramente falando, me decepcionei muito, e percebi lá, que mesmo sendo um “nada”, eu precisava chamar a atenção aqui no blog  para o fato de que a Odontologia pede socorro. Com direito a um gigante “SOS” estampado na nossa testa.

A diferença é que a sigla, ao invés do tradicional inglês “save our souls”, berra num português claríssimo a palavra que ela própria forma, acrescida apenas de um acento tão agudo quanto a minha indignação:

SÓS. Nós dentistas estamos sós.

Quem me conhece sabe que não sou de ficar aqui choramingando. Pelo contrário. Tento fazer aqui no Vida de Dentista um pouco de humor para tornar mais felizes os dias do cirurgião-dentista que, quase sempre, não tem motivos para rir da sua profissão. Até por isso peço que você leia todo o texto antes de mudar de página.

Esse CIOMIG, que eu pensava ser um evento de grande porte, não passa de uma “jornadinha” muito da cara (R$ 400 reais a adesão para não sócios da ABO-MG), onde os próprios freqüentadores e palestrantes se mostravam indignados com a absurda falta de organização que imperava lá. Fui como convidado de um dos expositores, a Angelus, mas se ninguém me convidasse eu entraria do mesmo jeito. Ninguém pediu meu nome. Eu cheguei e entrei.

Ok, talvez eu esteja assim desiludido por fazer a inevitável comparação entre o CIOMIG e o CIOSP, realizado na capital paulista em Janeiro último e que é um primor de qualidade e organização. Mas não. Que fique claro aqui que eu, em momento nenhum, imaginei encontrar uma estrutura parecida, apenas, proporcional.

Eu poderia ficar aqui um dia todo descendo a lenha na ABO-MG e no péssimo local onde ela resolveu montar seu maior evento. O Minascentro além de não fornecer um mínimo de conforto (ar-condicionado só existia nas salas de palestra)  não possui nenhuma estrutura para receber portadores de necessidades especiais ou dificuldade de locomoção. A área da feira comercial, onde cerca de 40 stands disputavam a atenção dos poucos corajosos que por ali passavam, é lotada de degraus. Não havia sequer um carpete no chão para padronizar o piso ou, pelo menos, para esconder a fiação que corria junto a ele.

Sim, haviam muitos problemas estruturais, mas o que mais me espanta é a falta de atenção que a maioria das empresas odontológicas nos dão. O dentista é tratado como um mendigo, que está ali só para receber seus vale-brindes. Não somos em momento algum vistos como a parte mais importante da engrenagem odontológica. Como quem realmente faz essas empresas ganharem dinheiro. Somos, aos olhos da maioria delas, os idiotas que compram deles o ano inteiro, trabalhando feito camelos para alavancar suas marcas e nomes e que, em troca, aceitam uma vez por ano meia dúzia de tubos de creme dental como recompensa.

O foda é saber que a culpa disso é nossa. O mais foda é saber que isso acontece faz muito tempo e que ninguém importante se posiciona. Nenhuma entidade de classe realmente defende os nossos interesses. A máfia comanda. Para a maioria das empresas, é mais fácil (e bem mais barato) investir na permanência daquela meia dúzia de velhos dinossauros da odontologia em seus cargos de chefia. O jogo de cartas marcadas é evidente e nojento. Esses mesmos velhos que comandam as entidades de classe e conselhos regionais e federal de Odontologia, um dia até a exerceram, mas talvez hoje  nem saibam por onde andam os seus diplomas.

Saindo do CIOMIG, fui me encontrar com minha irmã em uma feira de produtos farmacêuticos que acontecia simultaneamente no ExpoMinas. Além de ser um centro de eventos bem maior e mais decente (todo climatizado, sem degraus, etc…) percebia-se já na entrada a organização e o investimento alto que as empresas do ramo fizeram para agradar os “camelos” deles.

Vi, em menos de uma hora em que estive lá, serem sorteados aos farmacêuticos ali presentes um carro zero km, um mini-buggy e R$ 30 mil. Todos os stands tinham profissionais capacitados para atender aos visitantes, que mesmo leigos como eu, recebiam a mesma atenção e cuidado. O ambiente era agradável, cheio de locais para descanso e serviam com fartura a quem lá estava wisky, energético, cerveja, batida de frutas, refrigerante, sanduíches e canapés.

Sabem o que me ofereceram no CIOMIG ??? Nada. Nem um mísero copo d’água.

Pra não dizer que eu perdi a pernada, minha ida a BH valeu pelo encontro com o colega-blogueiro Léo Augusto e pela receptividade e cortesia com que fui recebido no stand da Angelus, que diga-se de passagem, era um dos mais bem localizados, organizados e bonitos, além de ser um dos pouquíssimos que respeitavam ali o dentista consumidor mantendo em seu stand alguém realmente preparado para orientar quem queria saber sobre os produtos à venda, no caso, a Dra. Janaína, cirurgiã-dentista e consultora técnica da empresa.

Finalizo implorando para que nós dentistas acordemos para a grande verdade. A de que somos apenas um bando de otários que se acotovelam em filas para pegar uma escova ou uma agendinha vagabunda, gentilmente “doadas” por empresas que ajudamos a fazer crescer (e ganhar muito $$$) todos os dias com nossas indicações.

Somos um rebanho domesticado ao extremo, capaz de se contentar com migalhas, mesmo quando somos tratados com desrespeito e desprezo pela maioria das empresas que nos fornecem (e caro) matéria prima para o trabalho diário. Cansa não ser valorizado. Pior. Cansa ser desvalorizado.

Ainda dá tempo para virar o jogo. Somos mais fracos mas somos maioria. Precisamos nos unir. E infelizmente sei que, nessa guerra, essa talvez seja a batalha mais difícil de se vencer. :(

 

Sobre o Autor 

Fabrício Mendes é atleticano desde que nasceu em 1978, dentista desde 1999, blogueiro odontológico desde 2010 quando do interior de Minas Gerais (Ilicínea, pra ser mais exato) resolveu criar o Vida de Dentista.