Sou dentista por causa de um pijama

dentista pijama

“Eram 6 horas da manhã. Acordei assustado. O despertador não tocou. Justo naquele dia a merda do despertador não tocou. Desespero. Respira. Pensa. Corri para o banheiro. Água na cara. Pente brigando com o cabelo. Vai assim mesmo. Tem que dar tempo. Sai de casa.

O relógio marcava 6:11 enquanto eu bufava subindo o morro rumo à rodoviária de Varginha-MG. Chovia. Meu ônibus, o que me levaria para fazer vestibular às 7:00 em Três Corações-MG já tinha saído a mais de 20 minutos. A quem eu estava querendo enganar com aquela correria ??? Eu tinha perdido. Eu estava perdido. Minha última chance de tentar passar no vestibular tinha se acabado ali. Aquele cochilo, ao invés de me valer um sonho, tinha me custado um.

Voltei pra casa. Entrei calado. Molhado. Derrotado. Todos dormiam. Sentei na sala e chorei sozinho no sofá. Quando de repente o Bauer apareceu. Aquele homem, que tinha me acolhido na sua casa, há quase um ano, para que eu pudesse fazer o 3º colegial numa escola melhor, queria saber o que tinha acontecido. Contei a ele. Ele me mandou levantar correndo. Pegou a chaves do carro dele e disse que me levaria em Três Corações. Tentei recusar. Mas não dava mais. Quando vi estávamos na rodovia.

Já eram 6:34. Os 25 km que separavam as duas cidades pareciam 2500. Ia ter que dar tempo. Correria. Muita correria. O motor daquele Corsa Wind nunca tinha sido tão exigido. A cada curva eu olhava no relógio e ele me pedia que ficasse tranquilo que ia dar tempo. Eu rezava. Tinha que dar. Depois daquele esforço todo, simplesmente tinha que dar.

Eram 6:49 quando entramos na Fernão Dias. Faltava pouco tempo.Carretas jogavam spray de água na gente. Perigoso. Mas estávamos bem perto. Eu olhei no velocímetro. Voávamos. De repente, uma gargalhada. O clima tenso deu lugar a um sorriso. O Bauer estava de pijamas. Na correria nem pensou em trocar roupa. Entramos na cidade.

Nas avenidas de Três Corações ele não respeitou nenhum quebra-molas. O tempo corria. Normal para todos. Rápido demais pra mim. Eram 6:55. Minhas mãos tremiam. Muito mais de remorso do que de medo. Porque eu não acordei ??? Porque ???

Quando finalmente começamos a descer a avenida que dava acesso à Unincor olhei no relógio. 7:00 horas. Eu tinha perdido. Tudo foi em vão. Não avistávamos o maldito portão de acesso. O prédio acabou. Já acreditava que aquele era o fim. Até que viramos a esquina e lá estava ele. O portão. ABERTO. Mas não por muito tempo. Um senhor o empurrava para fechá-lo. Instintivamente girei agilmente a manivela e abri o vidro do meu lado. Gritei. Implorei para que ele me esperasse. Meu amigo freou bruscamente o carro. Eu desci com ele ainda em movimento. Sai correndo em direção ao portão. O senhor não parou seu movimento de fechá-lo. Apenas diminuiu a velocidade com que cumpria a sua obrigação. Mas foi o suficiente. Consegui entrar.

Nem tive tempo para agradecer ao meu benfeitor. Era hora de arrebentar na prova e fazer valer todo aquele esforço. Como eu tinha conseguido ??? Simples !!! O meu relógio de pulso não estava regulado com da faculdade. A sorte enfim me sorriu naquela manhã chuvosa. E por falar em sorriso, enquanto eu fazia a prova, o meu não me abandonava. Excesso de confiança ??? Não !!! ? que não saia da minha cabeça a imagem do Bauer de pijama. O bendito pijama, que me economizou preciosos minutos e me permitiu estar contando isso aqui hoje.”

—–

Sabem porque tô contando isso pra vocês ??? ? porque coincidências acontecem. E tanto, que exatamente um dia depois de postar o agradecimento da Dra. Célia Barral a todos que a ajudaram a ser dentista, tive o prazer de poder atender aqui no meu consultório a pessoa que, depois de meu pai e minha mãe, foi o principal responsável por eu ter conseguido ser dentista. Obrigado Bauer … à você e à Silvânia, meus segundos pais, a quem eu devo minha eterna gratidão. =D

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Comentários

5 comentários em “Sou dentista por causa de um pijama

  • 19 de novembro de 2010 em 21:25
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    Ai,,,,chorei aki…

    Linda historia…

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  • 21 de novembro de 2010 em 00:42
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    Ouw minha nossa!!! Que lindo!!
    Que seria da nossa Vida de Dentista sem esses anjos!!!

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  • 21 de novembro de 2010 em 02:19
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    Cara, nós temos muita coisa em comum.
    Hoje de manhã, sabado, saindo pro consultorio, pensei em reclamar, mas lembrei dos nossos sacrificios para chegar aqui, e pensei: Sou feliz!!!
    Abraços

    Resposta
  • 22 de novembro de 2010 em 00:27
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    Morei por algum tempo em TC, odiei tudo aquilo.Mas lendo o q escreveu até tive um pouquinho de saudades da cidade. Muito bacana essa história. Parece que todos passam por uns bocados para fazer Odonto. Abraços.

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  • 20 de junho de 2011 em 11:11
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    bah,que historia…dei muita risada….mas e essencia dela apesar de engracada quase me fez chorar!!! parabens por ter tido a sorte de conhecer uma pessoa tao legal que fez toda diferenca na tua vida…com certeza inspirado por Deus naquele momento….abracos!

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