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O pastel de dente

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Impressionante como não nos esquecemos de certas coisas que nos acontecem. Não importa quanto tempo passe, elas ficam ali, bem vivas na memória da gente e agora vou contar para vocês uma das primeiras ocasiões em que a Odontologia cruzou a minha vida. Trata-se do dia em que eu comi o pastel de dente.

Eu devia ter os meus 7 anos, quando numa tarde, fui para a casa da vó, brincar com meus primos. Era só mais uma tarde qualquer num lugar onde eu vivi boa parte da minha infância. A casa da vó tinha um quintal gigantesco, cheio de árvores, e ostentava lá no fundo uma pequena mina d’água onde a gente matava a sede enquanto brinacava de fazendinha. Todos os netos pra lá se direcionavam, pois além de poderem brincar à vontade, no fim da tarde sempre saia uma fornada de biscoito de farinha e aquela limonada deliciosa.

Nessa tarde, o céu escureceu e assim que o primeiro pingo de chuva caiu a vó ordenou que todo mundo entrasse. Enquanto a gente olhava pela janela os raios caindo lá longe, ela “massava” pastel. Eu ficava rodeando pois sempre sobrava um pedaço de queijo ou uma colherada de carne moída que tinham sobrado do recheio dos pastéis. Na hora da fritura ela mandava que a gente se afastasse pra não correr o risco de ninguém se queimar com a gordura que espirrava do tacho.

Assim que saiu a primeira leva, eu usando das prerrogativas de neto mais velho, escolhi ao maior dos pastéis de queijo, o meu favorito. Saboreava rapidamente aquele primeiro, já pensando no segundo. A gula era bem maior que a fome real. O queijo derretido estava no fundo do pastel, e era lá que eu queria chegar. E foi ali, quando abocanhei o terço final do pastel é que eu senti aquilo. Uma pedra. Eu estava mordendo uma pedra.

Meio sem jeito, com a boca cheia de pastel de queijo semi-mastigado, eu tentei localizar com a língua aquela estrutura, que tinha obstruído a minha mastigação. Localizada, separei-a na boca, engoli o resto do pastel, e a removi com os dedos. Na verdade, eu “o” removi.

Um dente. Eu estava com um dente na mão. Meu Deus, meu dente caiu !!! Me desesperei e gritei a vó que já tirava a segunda leva de pastéis do tacho. Ela veio correndo quando disse a ela que eu tinha arrancado um dente. Pediu pra ver a “porteirinha”. Eu sorri, e ela estranhou pois não avistava o vão do dente. Nunca o avistaria mesmo.

A vó pediu que eu lavasse a minha boca no lavatório, pois os restos de pastel de queijo no meio dos dentes deviam estar atrapalhando. Eu fui e lavei. Bochechei água até não sair mais nenhum pedacinho de pastel

Fomos então olhar novamente e ………… nada. Nenhum dente faltando. Deve ser dente lá de trás, disse uma tia que ali estava. E lá foi a minha vó me deitar numa cama embaixo da lâmpada pra poder enxergar lá no fundo. Quando eu deitei, e a vó, bem em cima de mim me pediu para abrir a boca bastante, eu vi uma coisa e comecei a chorar. Ali, bem em cima de mim, me pedindo para abrir a boca, estava a dona do dente que eu mastiguei.

Eu gritei. O quarteirão inteiro deve ter escutado. Levantei e saí correndo. O fato mais nojento da minha curta vida tinha acabado de acontecer e todos os meus primos, que rodeavam a cena, estavam rindo de mim. Aquilo era munição para 10 anos de gozação e eu tinha que sair dali. Estava saindo rumo à minha casa quando lembrei de uma coisa. O dente da vó !!! Ele estava na minha mão, e mesmo contrariado, eu tinha que devolver.

Quando voltei, a vó estava trancada no banheiro. Deve ter ido conferir com seus próprios olhos que o dente era dela. Eu não sabia o que pensar. Achei que adultos não amolecessem e trocassem dentes. Perguntei para a minha tia como era que aquilo tinha acontecido e ela, me chamando num particular me contou algo terrível. Algo que nem nos meus piores pesadelos eu poderia imaginar. A vó usava DENTADURA !!!

Aquele dente que eu tinha mastigado tinha caído da dentadura enquanto ela montava os pastéis. Só não vomitei na mesma hora porque as risadas dos meus primos no outro cômodo me incomodavam mais. Supliquei para a minha tia que não deixasse que eles soubessem da verdade e ela concordou. Assim que a vó saiu do banheiro, envergonhada e sorrindo mas com os lábios selados, eu estiquei a mão para ela com o dente na ponta dos dedos. Ela pegou e imediatamente saiu de casa. Meia hora depois retornou com a dentadura devidamente reparada.

Desde então, toda vez que vou comer pastel na casa da vó eu peço a ela pra conferir se não tá faltando ninguém e ela solta aquela gargalhada que me faz feliz como uma criança de 7 anos. :-)

***

Domingo dia 08/12/13 a dona do dente partiu, deixando o meu mundo mais triste. :(

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