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O Dentista, a Dentadura e o Defunto


 O DENTISTA, A DENTADURA E O DEFUNTO

Telefone tocou na hora do almoço. Do outro lado da linha alguém me pergunta qual era o meu parentesco com o Fulano de Tal. Eu respondo que nenhum, que o conheço apenas por ser meu paciente e pergunto quem está falando e o motivo da pergunta. Me respondem que falavam do hospital e que o Fulano, foi encontrado caído numa rua, e só tinha na carteira o CPF e o cartão-horário do meu consultório. Pronto … meu apetite foi pro espaço !!!

Isso aconteceu no ano 2000. Eu tinha um consultório em Pouso Alegre-MG. Morava sozinho, no mesmo consultório onde aconteceu a história dos dentes voadores e, o Fulano em questão, morava na minha rua. Era o único filho de uma senhora de 81 anos e morava com ela. Solteirão, não por opção dele, mas delas, foi meu paciente por 2 meses, tempo no qual tive que remover todos os seus dentes devido a uma periodontite severa que além do amolecimento dos dentes lhe conferia um mau-hálito insuportável. Posteriormente foi confeccionado um par de dentaduras, que melhoraram consideravelmente a sua auto-estima e aparência.

Desliguei o telefone e pensei no que fazer. Se eu fosse lá e contasse pra véia era bem capaz dela bater as botas. Se eu não contasse, por outro lado, o Fulano ia ficar lá no hospital, sem ninguém pra acompanhar a sua recuperação. Dúvida cruel. O única certeza era que eu não podia ignorar aquele telefonema. Chave do carro na mão, fui pro hospital.

Chegando lá, me apresentei e a recepcionista que tinha me ligado pediu que eu a acompanhasse. Eu fui seguindo aquela moça por corredores frios e pouco iluminados. Descemos dois lances de escadas, e outro corredor imenso se apresentou. Era impressionante como nunca havia me ocorrido que ali em baixo houvesse um andar inteiro escondido no sub-solo. Ela então, quebrou o silêncio, dizendo que eu precisava identificar se o paciente que deu entrada era mesmo o Fulano, do cpf e com o meu cartão-horário. Andou mais uns poucos metros e parou frente a uma portinha, cuja placa no topo trazia a inscrição: NECROTÉRIO. Meu estômago embrulhou.

Sem entender nada perguntei que raios estava acontecendo. Ela disse que o Fulano, que tinha dado entrada após um infarto, faleceu minutos depois de chegar ao hospital. Disse que não me contou no telefone por precaução. Ela não sabia nem se ele, era realmente o dono daquele CPF. Eu estava ali para esclarecer essa dúvida. Foi então que ela abriu a porta. E eu definitivamente não esperava a visão que ali se revelou.

Três policiais estavam lá. Me esperando ao lado de uma mesa de mármore com o que parecia um corpo coberto por um lençol. Um deles me cumprimentou e sem nem esperar eu me acostumar com a situação foi logo levantando o lençol branco. Olhei para o rosto ali revelado. Infelizmente era mesmo o Fulano. Mas algo estava estranho. Sua face estava alterada. Boca murcha. Logo percebi. Ele estava sem as dentaduras.

Expliquei aos policiais onde ele morava e também pedi a eles que dessem a notícia para a mãe dele com jeito, caso contrário teríamos 2 defuntos. Eles agradeceram e foram embora. Eu aproveitei o momento e vazei fora daquele lugar também. Nem olhei pra trás pra me despedir da recepcionista que tinha me engambelado no telefone. Já era quase 1 da tarde e meus pacientes me esperavam.

Por mais que eu tentasse tocar a minha rotina, naquela tarde definitivamente não seria possível. Três casas para baixo uma senhora de 81 anos estava vivendo a pior tarde de sua vida e eu tinha sido a única pessoa conhecida que tinha estado com seu filho morto. Eu precisava ir lá, nem que fosse pra dizer a ela que eu sentia muito. Eu tinha uma janela sem paciente às 15:30. É… eu vou !!! Mas eu nunca imaginaria o que me esperava lá.

O portão estava aberto. Era possível ouvir pessoas chorando lá dentro. Entrei e assim que me viu a mãe dele se levantou. Veio ao meu encontro e me abraçou. Agradeceu-me por ter feito a identificação e por ter indicado aos policiais onde ela morava. Eu retribui o abraço e disse que sentia muito. Foi um abraço curto mas sincero. Eu realmente estava triste. Por ele e por ela. Antes de sair, por educação, perguntei se ela estava precisando de alguma coisa. Não devia ter perguntado.

Aquela senhora me fez um pedido improvável. Mais que isso. Ela me fez um pedido impossível. Queria que eu eu fizesse um novo par de dentaduras para o filho dela. Além de tê-lo achado com a feição desfigurada, ela gostaria muito de enterrá-lo com dentes, por dignidade. Pronto !!! E agora ???

Expliquei a ela que era impossível. Que todo o processo demora e que, mesmo que eu o moldasse imediatamente e que um laboratório fizesse numa velocidade recorde um par de dentaduras, talvez o rigor-mortis não permitisse a abertura da boca e a instalação das mesmas. Ela chorou. Mas o que eu podia fazer ???

Sai dali com a sensação de ter desapontado aquela senhora. Com medo dela achar que eu estava com má vontade. E quando eu já entrava de novo no consultório, uma voz chamou meu nome, uns metros atrás. Era uma das senhorinhas que estavam lá na casa do Fulano, confortando a mãe dele. Ele me perguntou se eu poderia dar uma palavrinha com ela. Pedi a ela que entrasse. Pela segunda vez no dia eu seria surpreendido. E como !!!

A proposta que a senhorinha me fez beirava o absurdo. Ela, que ouvira todo o papo que tive com a mãe do Fulano, estava ali para me fazer uma proposta ridícula. Ela queria que eu colocasse, no Fulano, as dentaduras do falecido esposo dela, que ela guardava em casa. Eu expliquei a ela que não era assim que funcionava. Que dentaduras eram próteses individuais, feitas sob medida para a boca de quem vai usar. Nem precisava explicar isso. Aposto que ela tinha duas em sua boca. Mas ela insistiu. Dizia que seu esposo tinha o mesmo tamanho do Fulano e que eu poderia pelo menos tentar. E, incrivelmente, talvez sensibilizado pela situação, eu aceitei ver o que podia ser feito. Mas com uma condição. A mãe do fulano tinha que saber de tudo e aprovar aquilo. Ela disse que essa parte eu podia deixar com ela. Saímos dali. Deixei com a minha secretária a incumbência de reagendar os pacientes do restante do dia. Naquela tarde eu tinha uma missão. E a meu ver, impossível.

Voltamos à casa do Fulano. A senhorinha explicou seu plano mirabolante. Eu expliquei que seria muito improvável que desse certo, mas que caso ela aceitasse, poderíamos tentar. Ela se calou. Pensou por um longo minuto e depois acenou com a cabeça concordando. Era a senha pra que aquela maluquice começasse.

A senhorinha atravessou a rua e entrou na sua casa. Eu nem sabia que ela morava ali. Dois minutos depois ela saiu com uma caixinha de madeira, parecendo um porta-jóias. Dentro delas o par de dentaduras. Me entregou e me pediu para que fizesse o que fosse possível. E lá fui eu rumo ao necrotério do hospital, onde o Fulano ainda aguardava pela chegada do serviço funerário.

Pra resumir essa epopéia, expliquei para a recepcionista o que se passava e ela, não só me acompanhou até lá, como me arrumou um par de luvas, que na pressa eu acabei esquecendo de levar. A dentadura superior entrou com folga, mas a inferior não assentou nem a porrete. A mandíbula do antigo dono era muito maior que a do Fulano. Impossível !!! Mas admito que, mesmo só com a “chapa” de cima o defunto estava mais parecido com ele mesmo.

Voltei à casa da mãe do Fulano e contei a ela o que pôde ser feito. Disse que tinha ficado melhor do que estava quando ela o viu, mas mesmo assim ainda não seria como era antes. Ela me agradeceu. Com os olhos marejados me contou que a polícia acha que seu filho tinha sido vítima de roubo, pois ele se dirigia ao banco, e nenhum dinheiro foi encontrado na sua carteira. Achava ela que ele teria sofrido o infarto durante o assalto. E num dia em que achei que nada mais me surpreenderia, ela me perguntou quanto era o meu serviço. Queria me pagar de qualquer jeito. Obviamente não aceitei. E para quebrar um pouco o clima de velório, ainda brinquei com ela que nem saberia cobrar por aquele serviço, pois ele nem existia nos anais da Odontologia.

Saí dali com a sensação de dever cumprido e com uma certeza: o ladrão que roubou o Fulano era banguela !!! Só isso explicaria ter levado também o par de dentaduras !!! :D

 

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