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A Prótese Fixa Comestível

prótese fixa

No post “O dentista récem-formado” de 20/06/10 eu disse que não confiava em 3 coisas: Homeopatia, Vendedor de carro e Dentista Cruzeirense. Pois é…. me esqueci de outra coisa que não me inspira confiança alguma e da qual passo longe toda vez que algum paciente necessita de algo parecido: PRÓTESE FIXA ADESIVA. Ainda mais quando descobri que ela é um produto comestível.

Diziam as boas línguas que esse método de procedimento protético é sensacional, pois alia funcionalidade, estética e preservação do remanescente dental. Era o futuro da prótese fixa. Nunca mais precisaríamos indicar uma endodontia para confecção de pinos intra-radiculares , tampouco fazer preparos de coroa total para obter melhor estabilidade. A era da adesividade tinha chegado e quem não se aliasse a ela ficaria ultrapassado. Pois bem…..eu confiei nessas palavras da ministrante de um cursinho do CRO e, como um cavalo que coloca uma viseira e só enxerga aquilo que está a sua frente, eu passei a acreditar naquilo como verdade absoluta. Mais que isso, passei a colocar aquilo na minha prática odontológica. Fiz uma, fiz cinco, fiz dez, sabe-se lá quantas eu fiz, todas com sucesso. Até aquele dia…

Lembro bem. Era uma quarta-feira, 19:30. Como todas as quartas, eu atendia em outro consultório numa cidade vizinha. Tinha sido um dia atribulado e eu estava muito cansado. Cheguei, guardei o carro e quando me dirigi ao consultório para guardar os equipamentos que tinha levado comigo, ela estava lá. Um rosto conhecido, sentada na recepção. Chorando. Copiosamente chorando. Que será que houve agora ???

Pedi um minuto a ela. Entrei para a sala clínica e a secretária veio atrás. Sua cara de espanto denunciava que eu estava prestes a ouvir algo desagradável. E bota desagradável nisso!!! Quando a secretária terminou de contar eu quase não acreditei. A minha paciente, que terminara seu tratamento há uns 6 meses atrás, conseguiu a façanha de engolir a sua prótese fixa adesiva de 4 elementos durante o jantar e estava ali, na minha recepção, chorando feito louca, com medo de morrer. Pronto!!! Meu dia estava completo. Completamente estragado!

Imediatamente chamei a paciente para a sala clínica. Sentei-a na cadeira e a pedi que abrisse a boca, na esperança que aquilo tudo não passasse de um mal-entendido. Mas não. Lá estavam eles. Completamente pelados e expostos. Os preparos. Fudeu !!! Meu conceito profissional vai para a lata do lixo !!!

O próximo passo foi tentar acalmá-la. Dizer a ela que a peça não apresentava risco à sua saúde, tampouco poderia causar a sua morte, como ela tanto temia, pois tinha suas extremidades arredondadas. Retirei o carro da garagem, levei-a até o hospital para uma radiografia toráxica. Se estivesse perto, talvez uma endoscopia a trouxesse de volta por onde entrou. Se estivesse longe, o jeito era esperar. E assim que a revelação ficou pronta, a avistamos. Lá estava ela. Linda. Radiopaca. Descendo pelo terço final do esôfago e em direção ao estômago. Posição favorável, segundo o médico de plantão, para uma “eliminação natural”. Eu me acalmei, mas ela não.

Levei-a até a sua casa, e marcamos no hospital outra radiografia para o dia seguinte. Quinta-Feira, depois de feito um novo RX, uma ótima notícia para mim. A prótese já tinha pegado a “rodovia intestinal”, e se tudo corresse bem, logo ela passaria pela “linha de chegada”. Mas desnecessariamente, o médico plantonista daquela noite resolveu complicar a minha vida, dizendo que o risco maior era se a prótese não conseguisse “fazer alguma curva” nas alças intestinais. Segundo ele, caso isso acontecesse, uma cirurgia bariátrica seria necessária. Foi o suficiente para uma nova crise de choro. Nessa hora, até eu tive vontade de chorar.

Deixei-a novamente em casa e o trato foi que ela ficasse atenta a qualquer barulho estranho, parecido com metal se chocando na porcelana durante … bom … vocês entenderam, né ??? Caso eliminasse a fixa, pedi que me ligasse imediatamente. Nunca torci tanto por uma cagada alheia.

Passou a sexta, o sábado, o domingo e nada dela me ligar. Foi um fim de semana tenso. Ao mesmo tempo em que eu precisava de notícias, ficava também sem jeito de ligar e ficar especulando sobre algo tão constrangedor para ela. Imagina a situação: “E aí ??? Saiu ???” Impossível perguntar isso. O jeito era esperar.

Na segunda, já me desesperando, peguei o telefone e liguei. A voz tranqüila do outro lado contrastava com a minha ansiedade. Perguntei a ela: “E aí ??? Como foi o fim de semana ??? “ Ela disse: “Ótimo!!! A prótese saiu na sexta-feira de manhã. “ Eu não sabia se ria ou chorava. Eu estava aliviado e ao mesmo tempo puto. Porque ela não me ligou ??? Porque não me tranquilizou ??? Passei um fim de semana do cão, mas nem pude reclamar. O final dessa novela tinha sido feliz.

Desde então, nunca mais eu utilizo próteses fixas adesivas em meus pacientes. Ou eles se dispõe a fazer canal dos pilares ou o preparo de cora total come solto. Não desejo o que passei nem para o meu maior inimigo e muito menos gostaria que algum outro paciente passasse pelo que essa passou. Foi constrangedor pra mim, pra ela, mas a minha sorte é que nela mesma, eu tinha feito outra adesiva na hemi-arcada oposta. E esta, estava lá. Firme e forte.

A paciente continua comigo e já resolvi o seu caso. Inclusive, ela trouxe o marido para se tratar comigo e as duas filhas, que se tratam com a minha esposa. No fim das contas, a única coisa que foi parar no lixo foi a fixa, que de fixa não tinha “merda” nenhuma !!!

:D

Sobre: Fabricio F. Mendes .'.

Fabrício Figueiredo Mendes é atleticano desde que nasceu em 1978, dentista desde 1999, marido desde 2005, pai desde 2008 e blogueiro odontológico desde 2010 quando de Ilicínea, no sul de Minas Gerais, resolveu criar o Vida de Dentista.

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